Tem coisa que se come com as mãos

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Manhã de feriado na padaria, interrompo a mordida no bauru – meu deus, o queijo derretido, uma angústia a ser aplacada e o presunto e o tomate no ponto – porque me espanto com a menina da minha idade comendo um pão com manteiga na chapa com garfo e faca.

“Olha lá, Marina!”
“Quê?”
“A menina come pão assim”
“Mas não pode. Isso não pode.”
“É, não pode. Tem coisa que não pode.”

E como é vasto o reino invisível de sutilezas mundanas, ao nosso lado senta o mesmo cara a quem vi ensinar à filha de quase três anos – último setembro, mesma padaria – como comer pão na chapa acompanhado de pingado. Dobrar ao meio, de comprido – como fazem os paulistanos, dar uma boa mordida (“uma delícia, não é, filha?”). Pensei naquela hora que ela estava aprendendo a encontrar alegria nas pequenas coisas, que a felicidade também morava nas padarias e torcendo para que anos mais tarde ela se lembrasse com carinho do gesto do pai.

Quando voltei os olhos para a menina da minha idade, ela já usava o garfo e a faca para matar um mini sonho de creme. Mas o que fazer com o açúcar de confeiteiro desperdiçado sobre a planície do prato de sobremesa? Então eu pensei que talvez ela não saberia nunca o que é a felicidade de padaria. Também me perguntei se gente que não pega a felicidade com as mãos é capaz de ter orgasmos.

 

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