O café da livraria | Mestiço, Livraria Martins Fontes Paulista

Visão geral do Mestiço: tranquilo e aconchegante
Visão geral do Mestiço: tranquilo e aconchegante
Mestiço, Livraria Martins Fontes Paulista
Funciona de segunda a sexta, das 9h às 22h, aos sábados, das 10h às 20h, e aos domingos e feriados, das 14h às 20h.
 
Dando continuidade à série O café da livraria – o primeiro post sobre o café da Livraria da Vila está aqui -, chegou a vez do Mestiço, que fica no segundo piso da livraria Martins Fontes Paulista, unidade da Avenida Paulista. Para chegar até lá, é preciso entrar na parte principal da loja (assim que você entra no prédio, há um ambiente à parte, à esquerda, voltado mais aos livros sobre arte, cinema e música) subir a escada helicoidal que dá acesso à parte de linguística, idiomas, comunicação, dicionários e voilá. Pequeno, com três ou quatro mesinhas, algumas banquetas, wi-fi grátis e rápido, além de jornais e revistas, o Mestiço é um café intimista e aconchegante. A última visita para esta avaliação foi feita numa tarde de muita chuva, no dia seguinte à derrota por 7×1 da seleção brasileira para a Alemanha (na Avenida Paulista, hordas de argentinos passeavam e alguns gritavam “Siete, siete!!” para um brasileiro que passou apostando em 4×1 para a Holanda no jogo que aconteceria mais tarde – e que, ao contrário, levou nossos hermanos para a final). Lá dentro, o que impera é o sossego, entremeado pelo burburinho quase ocasional dos visitantes. 
 
Fizemos uma longa pausa entre os livros do térreo antes de subir para o café e, quando desci para buscar um título de que havia me esquecido, a Kaísa engatou um papo com um professor universitário especializado em literatura africana, da qual ela é muito fã. A troca de ideias começou porque ela trazia, do acervo da livraria, títulos dos angolanos Ondjaki e Pepetela – provando que as livrarias e seus cafés são lugares ótimos para conhecer gente interessante.
 
Bolo de coco, bolo de nozes e drinks quentes com café: tudo muito bem feito e gostoso
Bolo de coco, bolo de nozes e drinks quentes com café: tudo muito bem feito e gostoso
O atendimento no Mestiço é bastante cordial e cuidadoso, e desta vez decidimos trocar o expresso comum pelo Capuccino (R$ 7) e o Irlanda (R$ 12), uma mistura de leite vaporizado, Bailey’s, café e calda de chocolate, drinks servidos com cuidado e em boa quantidade. Para acompanhar, bolo de nozes (R$ 9) e bolo molhado de coco e chocolate belga (R$ 8), que estavam, ambos, fresquinhos e gostosos. Para cortar o efeito do doce – confesso que prefiro salgados – vinho chileno Carmen carmenére (R$ 18) e água com gás (R$ 4) para terminar a tarde.
 
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Infelizmente, o café serve somente esse rótulo de vinho e em garrafinhas de cerca de 187 ml, fica um pouco mais caro que a média e vem na medida para uma pessoa. O cardápio traz a opção de vinho branco (que não tinha no dia) e garrafinha de Baby Chandon. Se houvesse meias-garrafas, seria excelente. Recomendo ainda as empanadas chilenas, que tive oportunidade de provar em outra ocasião.
 
Enfim, o Mestiço é dos mais aconchegantes que conheço, e vale a visita para quem quer experimentar comidinhas simples, saborear cafés gostosos e ter momentos de paz. Este café é uma “extensão” do Mestiço Restaurante e Bar, que fica na Consolação e serve comida contemporânea, com toques tailandeses e baianos. Também vale a visita. 
 
Avaliação de acessibilidade*
  • O café é inacessível para os cadeirantes e para as pessoas de mobilidade reduzida. Ele está em pavimento intermediário e distante do elevador.
  • Há algumas áreas de atendimento e consulta em barreiras de altura, ou seja, abaixo 2.10m, que não estão sinalizadas.   
  • Escadas helicoidais tendem a ser inacessíveis, porém compreendo que as de madeira são as originais do edifício. O aconselhado nesse caso é que os degraus tenham diferenciação contrastante e que o corrimão obedeça a altura e o diâmetro máximo conforme a NBR 9050. 
  • O sanitário adaptado está localizado no pavimento administrativo. O percurso entre o elevador e o sanitário causa certo desconforto, como indicado pelos funcionários, a pessoa com deficiência percorre o terraço descoberto para acessá-lo.
 
*A avaliação de acessibilidade foi feita pela Kaísa Isabel, que é arquiteta certificada em acessibilidade pela SMPED/SP. (Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência e Mobilidade Reduzida)
 
Vale também – e muito! 
Vista da parte superior da loja, próximo ao café
Vista da parte superior da loja, próximo ao café
  • Parece pequena, mas a Martins Fontes tem 1000 m², e uma seleção variadíssima de títulos: são 120 mil no acervo da loja, entre nacionais e internacionais. Pelo site, dá para escolher entre 700 mil. No dia em que estivemos lá, a livraria também participava da promoção de até 50% de desconto nos livros da editora Cosac Naify.
  • As poltronas são poucas, mas como o local é tranquilo, sempre há alguma disponível. E são muito, muito confortáveis.
    Poltronas confortáveis e... livres!
    Poltronas confortáveis e… livres!
  • Particularmente, gosto muito da identidade visual, meio retrô, da livraria. E se tem uma coisa que me encanta e que valorizo são marcadores de livro. Os que recebi assim que paguei pelos livros são muito bonitos. 
    Marcadores com a cara da identidade visual da loja
    Marcadores com a cara da identidade visual da loja
  • Em quase todas as vezes que estive na Martins Fontes, estava rolando algum lançamento de livro. Percebi que a livraria não tem uma revista, mas o site traz todas as informações sobre eventos em suas unidades.
  • E por falar em eventos, é lá que acontece, mensalmente, o Clube de Leitura Penguin – Companhia das Letras. Seria bem mais legal se uma quantidade maior de pessoas participasse desses encontros. 
  • Em São Paulo, além da Avenida Paulista, há outras duas lojas. Santos também conta uma uma unidade.
O que eu levei desta vez
Logo após sair do café, não resisti e levei para casa Música para camaleões, de Truman Capote (Companhia das Letras, 2006) e O coronel Chabert, de Honoré de Balzac (Penguin e Companhia das Letras, 2013). Capote porque ele é genial e o último pela relação direta com um livro que eu havia acabado de terminar, que é Os Enamoramentos, de Javier Marías (Companhia das Letras, 2011). No térreo há alguns cantinhos com centenas de livros de bolso. 
 

 

O café da livraria | Santo Grão, Livraria da Vila

Em muitas, muitas livrarias, existe um refúgio mágico e convidativo conhecido como “o café da livraria”.

Tem sido inúmeras as vezes em que o primeiro lugar que me vem à cabeça para marcar um encontro é o burburinho agradável de xícaras, páginas virando e discussões comedidas do “café da livraria”, ao invés do barulho e música alta de pubs e bares. Além da tranquilidade em poder levar qualquer livro para a mesa, a maioria desses lugares tem wi-fi aberto (bem legal para quem quer aproveitar para trabalhar) e cardápios geralmente bastante variados. Isso sem contar a possibilidade de sem querer acabar participando de lançamentos bacanas, esbarrar com personalidades e encontrar gente muito interessante (ah, a troca de olhares…).

Pois bem, como o café da livraria está toda semana no meu roteiro, cada vez que visitar um, vou publicar uma avaliação. Sempre que for possível, com a ajuda da Kaísa Isabel, que é arquiteta certificada em acessibilidade pela SMPED/SP
(Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência e Mobilidade Reduzida), o quesito de acesso para deficientes também será contemplado.

Santo Grão, Livraria da Vila
Rua Fradique Coutinho, 915, Vila Madalena, São Paulo

Loja com jeito de casa, escadas que charmosamente dão para outros pavimentos – são quatro andares -, mais e mais estantes, atendimento bacana e uma variadíssima seleção de livros (a riqueza e refinamento dos títulos nas prateleiras não fica devendo nada aos numerosos best-sellers, sem contar a seção infantil, bem sortida), a Livraria da Vila é das mais intimistas para quem busca um pouco de sossego.

Livraria com jeito de casinha e refúgio
Livraria com jeito de casinha e refúgio

Descendo as escadas para o fundo, bem no quintal da loja, entre uma jabuticabeira e uma amoreira, fica o café Santo Grão. A marca está presente em outros endereços na cidade e é bastante conhecida por servir cafés do tipo gourmet. Era por volta de 13h30 e o sol batia lindamente do lado direito, onde há uma mesa de madeira mais ampla em meio a bastante verde, mas escolhi uma das mesinhas do lado esquerdo, na área com mais sombra do quintal.

Quanto ao público, tem de tudo um pouco. Gente solteira e curtindo sozinha – meu caso – senhores e senhoras mais velhos, famílias inteiras, avó que deixou o neto vestido de Batman almoçar bolo de chocolate com suco; é uma delícia de observar o movimento.

Ponto de vista do cantinho menos não tão bonito e nada ensolarado, porém não menos agradável
Ponto de vista do cantinho não tão bonito do Santo Grão e nada ensolarado, porém não menos agradável

Então, já faminta, cheia das boas expectativas e com A era da turbulência do Alan Greenspan e Conversas com Scorsese do Richard Schickel nas mãos, decidi deixar o café por último e almoçar algo mais assim, digamos, substancioso. Pedi o sanduíche de lascas de filet mignon com tomate fresco, cebola roxa, queijo derretido e outras coisinhas no pão ciabatta (R$ 28,50), precedido por um bowl de mix de folhas com tomate cereja. Para acompanhar, meia garrafa de vinho tinto Doña Paula (R$ 38) e água com gás que não lembro o preço. Naquele dia não havia a opção de pedir o vinho por taça, e esta marca é a única que consta do cardápio. Não chega a ser um problema, esse vinho é bastante agradável.

Mix de folhas de entradinha. E tem vinagre balsâmico, que adoro.
Mix de folhas de entradinha. E tem vinagre balsâmico, que adoro.

Tirando o pão um pouco mais seco do que eu esperava, que me fez abandonar garfo e faca na parte mais torradinha (lembrando que certas coisas se come mesmo é com as mãos), estava tudo muito fresquinho e saboroso. Nessa hora tive a certeza de ter encontrado um concorrente à altura do sanduíche de rosbife picante no pão ciabatta servido num certo café de um cinema que abordarei em outra ocasião.

Apenas que: "nham!"
Tiras de filet mignon com tomate e outras coisinhas no pão ciabatta: “nham!”

Para finalizar, pedi o espresso comum do Santo Grão (R$ 5), que agrada sobremaneira, mesmo para uma leiga em cafés gourmet como eu. Como diria mamãe, dá gosto de tomar!

Espresso Santo Grão, muito bom, muito bem
Espresso Santo Grão, muito bom, muito bem

Pontos fracos

  • Assim que me sentei à mesinha, dois ou três atendentes da cafeteria discutiam sobre o que entendi ser um pedido feito de forma errada por um deles. A discussão começou entre as mesas e passou para o corredor lateral, perturbando a paz do ambiente e fazendo alguns olhares curiosos e incomodados se levantarem por detrás dos livros. O quiproquó durou uns dez minutos. Depois, devo ter passado mais umas duas horas por lá no mais santo estado de contemplação literária.
  • As escadas são charmosas, mas o acesso para deficientes fica praticamente impossível. Em breve coloco uma avaliação sobre esse quesito por aqui.

Vale também

  • Na entrada da loja, retirar um exemplar da revista Vila Cultural. Naquele dia a edição de junho ainda não estava pronta, mas a programação de lançamentos, palestras, eventos infantis, tudo gratuito, é muito bacana. No dia 22/5, por exemplo, tinha rolado um clube de leitura com a escritora uruguaia Inés Bortagaray, autora do recém-lançado romance Um, dois e já. A agenda de eventos também é atualizada constantemente no site.
  • Se cadastrar no clube de fidelidade da loja. É só informar nome completo e CPF no caixa e zás.
  • As poltronas espalhadas pela livraria não são muitas, mas são bem convidativas para sentar e ficar.
  • Em São Paulo, tem mais unidades da Livraria da Vila: Lorena, Shopping JK Iguatemi, Shopping Pátio Higienópolis e Moema. Campinas e Curitiba também contam com uma cada.

O que eu levei desta vez
A ideia era encontrar para uma amiga um exemplar de O que o dinheiro não compra, do Michael Sandel, mas estava em falta. Não resisti ao apelo das novas edições da Simone de Beauvoir da Nova Fronteira e levei para casa A força da idade, livro autobiográfico que retrata o período da vida da autora que a fez passar da juventude à maturidade.

Tem coisa que se come com as mãos

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Manhã de feriado na padaria, interrompo a mordida no bauru – meu deus, o queijo derretido, uma angústia a ser aplacada e o presunto e o tomate no ponto – porque me espanto com a menina da minha idade comendo um pão com manteiga na chapa com garfo e faca.

“Olha lá, Marina!”
“Quê?”
“A menina come pão assim”
“Mas não pode. Isso não pode.”
“É, não pode. Tem coisa que não pode.”

E como é vasto o reino invisível de sutilezas mundanas, ao nosso lado senta o mesmo cara a quem vi ensinar à filha de quase três anos – último setembro, mesma padaria – como comer pão na chapa acompanhado de pingado. Dobrar ao meio, de comprido – como fazem os paulistanos, dar uma boa mordida (“uma delícia, não é, filha?”). Pensei naquela hora que ela estava aprendendo a encontrar alegria nas pequenas coisas, que a felicidade também morava nas padarias e torcendo para que anos mais tarde ela se lembrasse com carinho do gesto do pai.

Quando voltei os olhos para a menina da minha idade, ela já usava o garfo e a faca para matar um mini sonho de creme. Mas o que fazer com o açúcar de confeiteiro desperdiçado sobre a planície do prato de sobremesa? Então eu pensei que talvez ela não saberia nunca o que é a felicidade de padaria. Também me perguntei se gente que não pega a felicidade com as mãos é capaz de ter orgasmos.