A palavra que dança e a palavra ordinária

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Há dias em que a gente fica procurando um adjetivo daqueles bem certeiros para explicar o que sente. Nessas horas penso na minha cabeça como um depósito de milhares de pastinhas enfileiradas, enfeitadas com marcadores coloridos em ordem sináptica; fico matutando numa espécie de corrida maluca de sinônimos nos dicionários que moram lá dentro com suas páginas soltas.

Teve um dia desses que foi assim. Porque estava muito chateada – daquelas chateações propícias às lágrimas fáceis -, entrei no metrô tentando decidir se o que eu sentia era tristeza ou exaustão (os dois juntos ou talvez separados?), angústia ou desamparo. Pois tirante a cafonice do termo, decidi por bem que me sentia “miserável”. Engraçado que, diante da pergunta – como está o fulano?, quando se sabe que alguém está sofrendo por isto ou aquilo, ninguém responde – ah, o fulano se sente miserável hoje… ou – sabe, mas que dia de cão, me sinto miserável. Nunca ouvi quem descrevesse a si ou ao outro desta maneira. É como dizer de um sujeito muito bravo: – cuidado que hoje ele está alterado, saiu daqui furibundo!

Uma feirinha tão sortida de palavras a explorar e ninguém está furibundo, quiçá miserável. A verdade é que – penso eu – somos pouco criativos na utilização de recursos linguisticamente dramáticos, essenciais para o que chamamos, eu e uma amiga, de “mexicanização do mundo”: se a vida com mais drama não se torna mais fácil, pelo menos deixa a história mais interessante. É a diferença do velório de silêncio, grama verde e choro contido para o velório com as lágrimas das carpideiras e a emoção da tia chorosa escapando às engrenagens; a distância imperiosa entre o grupo de mariachis e a música de elevador. Existe o prazer de buscar e guardar em meio a tanto diálogo ordinário, como para compor uma rara coleção, palavras que dançam, passeiam, dão voltas e elegantes piruetas ao largo do trivial. Mas há, sempre há quem saiba, sem querer e por atavismo ou sei lá o quê, surpreender com o pitoresco. No dia seguinte àquele que me descobri não apenas um bicho triste mas miserável – e já devidamente curada de minha miserabilidade-, numa conversa meio boba e desinteressada, ao perguntar a um amigo o que ele pensava de um outro, ouvi: – esse rapaz é, sem erro, um temerário. Um te-me-rá-rio -, disse, marcando bem cada sílaba do adjetivo. Este eu guardei, sorrindo satisfeita, na caixinha das palavras dançarinas.

Tem coisa que se come com as mãos

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Manhã de feriado na padaria, interrompo a mordida no bauru – meu deus, o queijo derretido, uma angústia a ser aplacada e o presunto e o tomate no ponto – porque me espanto com a menina da minha idade comendo um pão com manteiga na chapa com garfo e faca.

“Olha lá, Marina!”
“Quê?”
“A menina come pão assim”
“Mas não pode. Isso não pode.”
“É, não pode. Tem coisa que não pode.”

E como é vasto o reino invisível de sutilezas mundanas, ao nosso lado senta o mesmo cara a quem vi ensinar à filha de quase três anos – último setembro, mesma padaria – como comer pão na chapa acompanhado de pingado. Dobrar ao meio, de comprido – como fazem os paulistanos, dar uma boa mordida (“uma delícia, não é, filha?”). Pensei naquela hora que ela estava aprendendo a encontrar alegria nas pequenas coisas, que a felicidade também morava nas padarias e torcendo para que anos mais tarde ela se lembrasse com carinho do gesto do pai.

Quando voltei os olhos para a menina da minha idade, ela já usava o garfo e a faca para matar um mini sonho de creme. Mas o que fazer com o açúcar de confeiteiro desperdiçado sobre a planície do prato de sobremesa? Então eu pensei que talvez ela não saberia nunca o que é a felicidade de padaria. Também me perguntei se gente que não pega a felicidade com as mãos é capaz de ter orgasmos.