Whatsapp, definição

Uma cacofonia insuportável, numa espiral caótica de solicitações, lamentos, demandas afetivas e urgências de toda ordem – nunca verdadeiramente urgentes, já que quando tudo é prioridade, nada é prioridade – dispersas, difusas, impossíveis de ordenar, onde ganha quem grita mais alto. Ou enche mais o saco, o que dá na mesma.

 

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E eu me desorganizando posso me organizar

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eu aprendi a cuidar delas. por exemplo.

Engraçado que mesmo não vindo aqui para escrever, é difícil que tenha se passado um único dia sem que eu pensasse no blog. Eu fico ensaiando e escrevendo verdadeiros textões mentais e pensando em uma pauta, ou somente no fato de que eu não necessariamente quero e/ou preciso escrever sobre livros. Porque eles estão aqui, dentro e fora, como um órgão, um diabinho, um neurônio eterno, uma partezinha indissociável de mim e sou bem grata por isso.  E quando eu digo eles, me refiro ao sentido mais amplo da coisa, que é o conhecimento, o impulso de vida, o alívio que acontece logo depois de quando você abre a timeline do Facebook e quer dar um tiro na cabeça, mas lembra que ter qualquer coisa que valha a pena ser lida é o mesmo que ter onde se esconder de verdade, então não precisa de tiro coisa nenhuma.

E antes de deixar esse trecho magnífico da Susan Sontag (meu deus do céu, me deixa ser ela por um dia!), preciso dizer que foi lendo Marie Kondo que eu aprendi a, finalmente, arrumar meu guarda roupa. E isso quer dizer muita coisa pra quem passou os últimos cinco anos buscando um caminho para arrumar a vida. E está conseguindo.

Ser inteligente, para mim, não é como fazer algo ‘melhor’. É minha única forma de existir. […] Eu sei que tenho medo da passividade (e da dependência). Alguma coisa faz eu me sentir ativa (autônoma) quando uso a mente. Isso é bom.

Sobre a Greve Geral, o amor, a luta e a fatura que sempre chega

Sobre a Greve Geral, o amor, a luta e a fatura que sempre chega
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Você estava lá, para eu estar aqui.

Engraçado. Cresci dentro do Sindicato dos Bancários porque vi minha mãe passar uma vida, quando ela tinha não mais que minha idade pra frente, lutando de assembleia em assembleia, de greve em greve, primeiro pra conquistar e depois pra não deixar que enterrassem (porque eles SEMPRE vão tentar enterrar, como se sabe) meia dúzia de direitos. Outro dia fui com ela no instituto responsável pelo fundo de pensão do pessoal da antiga Nossa Caixa, pra ela acertar os últimos detalhes da aposentadoria e descobri ali que ela deixou de pagar uma alíquota que garantiria uma complementação de aposentadoria maior, e portanto mais necessária para a velhice, pra pagar minha faculdade de jornalismo. “Eu vou pagar sua primeira mensalidade e depois a gente vê se consegue pagar o resto”, ela disse, quando fizemos a matrícula. E o que ela fez pra nunca atrasar um boleto foi isso que contei: garantir minha graduação numa universidade tradicional e, portanto, cara pra uma filha de bancária e de um operário, a troco de uma aposentadoria que em pouco tempo mal vai cobrir as despesas de saúde. Em tempo: a do meu pai, que começou a trabalhar na marcenaria ainda criança, não passa de um salário mínimo. Foi assim que eu soube. 16 anos depois. Ela se aposentou em dezembro de 2016, foi uma das últimas nesse país, certamente. Eu chorei escondida. Ela ainda guarda o chaveiro da PUC que a gente ganhou no dia da matrícula.
*
Então que eu sei que muitos de nós, MUITOS DE VOCÊS, também cresceram com o pai ou a mãe se fodendo muito em porta de banco, de fábrica, de escola pra conseguir garantir o direito de passar uns dias do ano com a gente nas férias escolares, pra pagar mensalidade, te levar pra Itanhaém ou pra Disney, pagar transporte, caderno bonitinho, faculdade de elite, as bostinhas de roupa de marca que a gente queria, as baladinhas do momento, pra dizer o mínimo. Pra não deixar o couro todo no trabalho, pra respirar um pouco, pra não se aposentar só com o dinheiro da caixa do remédio pra artrite. Então que quando eu vejo esses mesmos filhos se referindo à #GreveGeral como vagabundagem, eu sinto uma dorzinha no coração sim. Não por eles, mas porque a fatura que sempre chega é a da realidade. Hoje ou 16 anos depois, ela vai chegar. O Brasil acontece não é na televisão, não. É dentro da nossa casa, é aqui na nossa vida de gente privilegiada, mas quase sempre cega e de coração gelado.
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Em tempo: antes de eu saber de tudo isso, e poucos anos atrás, meus pais também me ajudaram com a entrada do MBA na FGV. Caríssimo. Para poucos. Me digam se existe amor e dinheiro no mundo capazes de retribuir, porque eu não acho que eu vá conseguir, nunca. Por isso me orgulho tanto daquele recorte de jornal do Sindicato da década de 80 com ela na capa. Que os filhos de quem está na rua hoje também possam se orgulhar de alguma coisa.

Fruição artística é seu passadis e a Central do Textão

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Orgulhosamente entrou no ar hoje, hojezinho mesmo, a Central do Textão. Então fazemos parte e eu e um montão de blogs ótimos e queridos – tantos, mas tantos das antigas, dos bons tempos da blogagem – e a real é que estamos todo juntos sendo o blog dos blogs, e por causa disso voltei a escrever. Coisa que nunca deveria ter parado.

A ideia foi da tinalopes, que conheci uns bons anos atrás na terra da blogalia e reuniu o bonde todo, e lindamente preparado pela Ju. Um belo dia recebi um convite para participar da comunidade no feice lá pra abril e vejam só, maio chegou, chegamos todos.

O que me moveu nessa coisa toda foi quase chorar de emoçã ao ver nessa lista aqui que mais da metade é leitura minha de anos a fio, gente que ficou no coração, gente que eu não lembrava mais o link, gente que li, li, li até cansar a vista em diferentes momentos da vida (pessoinha aqui escreve em blog desde os 16,
17 anos, se desfiar o index vai longe). E tem também o fato de eu ser mesmo uma ridícula que para de escrever porque precisa se auto-punir com os monstros debaixo da cama.

Mas como diz mamãe, o importante é o que importa. Vamos todos levantar nossas taças.

ps: o layout aqui do Comecei tá bagunçado AINDA, mas é já que a manutenção chega.

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Monica Barengo, Mexican Series

Você sabe que nossa sociedade está a caminho da ruína quando vai a uma exposição de arte e precisa “sair da frente” de uma obra ou esperar pra ver ou ser interrompido a cada dois segundos porque o outro PRECISA tirar foto do quadro, com o quadro, na frente do quadro, do lado do quadro, fazendo hang loose e vezinho da vitória na frente do quadro, selfie com o quadro. A gente não pode mesmo se assustar quando vê essas notícias de gente que morreu tirando selfie no abismo, mais do que nunca, cada um é o centro do próprio universo. Que coisa triste.

“Porque a estética consumatória que domina nossa cultura não tem mais nada a ver com o estetismo culto clássico que visava à elevação da alma e se consumava na contemplação e veneração silenciosa das obras. O consumidor hipermoderno é hedonista, descontraído (…) menos amante de arte que zapeador bulímico de imagens. (…) A arte (…) tornando-se um tipo de consumo frívolo, um simples acessório divertido da vida. Não que a arte tenha deixado de apaixonar o público — muito pelo contrário, jamais tantas belezas artísticas foram apreciadas por tantos indivíduos —, mas ela só o toca de maneira epidérmica, como um objeto de consumo ou um espetáculo de animação do cotidiano.” (Lipovetsky & Serroy)

 

Everything, um poema de amor de A. R. Ammons

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Encontrei numa promoção qualquer de 30% sobre os preços dos importados da Livraria da Vila uma edição-compêndio que me pareceu incrível (e é!) da Picador com toda e qualquer coisa boa em termos de ensaio, ficção, poesia, entrevistas e etcéteras da Paris Review desde 1953. Ezra Pound, Primo Levi, Jonathan Franzen, Kerouac, Mario Vargas Llosa, Susan Sontag e mais umas dezenas de ótimos nomes. E por falar em nome, antes mesmo de espiar o sumário, que cristão não levaria para casa um livro chamado The Paris Review book of heartbreak, madness, sex, love, betrayal, outsiders, intoxication, war, whimsy, horrors, God, death, dinner, baseball, travels, the art of writing, and everything else in the world since 1953? Se tudo o que importa na vida, ou melhor, se tudo de que a vida é feita está num único livro – que não é a Bíblia – e os apóstolos são gente como Naipaul, García Marquez, Tennesse Williams, Alice Munro, Truman Capote e Gertrude Stein (Philip Roth não conta, minha implicância com este senhor o coloca na qualidade de um Judas, no máximo), porque não gastar uns trocados, é ou não é?

Isso já faz uns quatro meses, lembro apenas que as árvores de Natal já invadiam todos os cantos do shopping Higienópolis, e eu ainda não tive tempo para ler essa maravilha em papel jornal. Acontece que no mesmo dia, antes do ensaio da roda de choro (digamos que eu toco pandeiro em uma), enquanto tomava minha sagrada 8.6 com pizza de muçarela, aquelas de balcão, a esmo abri em Love. Amor. Então eu descobri num poema de Archie Randolph Ammons (1926 – 2001 / Whiteville, Carolina do Norte) meia dúzia de palavras tão perfeitas, que juntas eram basicamente tudo o que a gente quer dizer e quer expressar e não consegue quando alguém chega de repente na nossa vida e as coisas começam a fazer sentido. Até o ar. Até as cadeiras. Ou ganha um sentido que se sentia perdido mas que a gente nem sabia que pudesse existir. Ali, cortando a pizza, meus olhos se encheram de cisquinhos invisíveis.

Posto aqui o bendito poema no original em inglês, mas aceito ajuda com uma meticulosa e respeitosa tradução de Everything, pois não tenho notícia de que exista uma e não gostaria que uma vírgula do sentido inicial se perdesse.

Everything

found on the back of an envelope from Helen Vendler, 1.28.1981

You came one day and
as usual in such matters
significance filled everything –
your eyes, the things you
knew, the way you turned,
leaned, stood, or sat
this way or that: when
you left, the area around here rose
a tilted tide, and everything that
offers desolation drained away.

– A.R. Ammons

Ocupação Hilda Hilst vai até 21 de abril no Itaú Cultural

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Tive uma professora de português na oitava série fez grande parte da classe pelo menos se interessar por Hilda Hilst. Não só porque, segundo ela, se tratava de literatura brasileira da mais fina estirpe, mas porque era “literatura obscena”. E quem, com 14 anos, não queria ler obscenidades, ainda que literárias, gratuitamente logo ali na biblioteca?

O tempo passou e quem se deixou levar pela beleza e meandros nada óbvios da narrativa da escritora, certamente se descobriu apaixonado por Hilda. Erotismo? Apenas um dos componentes do infinito universo de personagens, digressões, referências e emaranhados da autora, que morreu em 2004, aos 84 anos. Como ela mesma definiu: ““Talvez eu tenha escrito com muita complexidade porque a própria vida é complexa… Não há simplicidade nenhuma no ato de existir”.

Pois quem deseja se aprofundar nas idiossincrasias de seu processo criativo e mergulhar em sua história, vai até o dia 21 de abril, em São Paulo, a Ocupação Hilda Hilst, no Itaú Cultural.

O público tem a oportunidade de acompanhar o cotidiano da autora, como se seu trabalho estivesse em elaboração, pois estão expostas notas nas agendas, registros de sonhos, desenhos, reflexões, tudo que por ela era utilizado como fonte de inspiração. Fac-símiles que parte dos originais manuscritos e datilografados também podem ser manipulados.

A lendária Casa do Sol, morada de Hilda em Campinas dos 35 até o fim do vida, onde recebia amigos e artistas, inspira o cenário da exposição.

Vai lá: Ocupação Hilda Hilst. Itaú Cultural, Avenida Paulista, 149.

IX – Do desejo

E por que haverias de querer minha alma
Na tua cama?
Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas
Obscenas, porque era assim que gostávamos.
Mas não menti gozo prazer lascívia
Nem omiti que a alma está além, buscando
Aquele Outro. E te repito: por que haverias
De querer minha alma na tua cama?
Jubila-te da memória de coitos e acertos.
Ou tenta-me de novo. Obriga-me.

– Hilda Hilst

Onde estão as mulheres na literatura brasileira?

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Tente o seguinte exercício: anote num pedaço de papel os primeiros cinco nomes da literatura que vêm à sua cabeça. A maioria é homem ou mulher? Quando você pensa nos livros da escola, quais escritoras além de Clarice Lispector, Cecília Meireles e Cora Coralina, Tatiana Belinky e Ruth Rocha foram recomendadas pelos seus professores? E os personagens dos livros que escolhe, a maior parte é de que gênero?

Aproveitando que se aproxima o Dia Internacional da Mulher (que curiosamente é a data em que nasci – desculpem, não resisti) , estava aqui bem sossegada pesquisando trechos e infos para um post especial sobre oito escritoras que quero fortemente recomendar, quando me deparei com os resultados de uma pesquisa da professora da UnB Regina Dalcastagnè, que resultou no livro “Literatura Brasileira Contemporânea – Um território contestado”, lançado em 2012. De 1990 a 2004, ela mapeou todos os romances brasileiros publicados pelas três editoras mais importantes do país e descobriu que nossa literatura é toda… dominada por homens. Isto significa que mais de 70% dos escritores e dos personagens por eles criados são do sexo masculino. No infográfico abaixo dá para ter uma boa ideia da baixa representatividade da mulher no mundo literário, seja no real ou no inventado.

Quer saber um pouco mais do trabalho da professora Regina? Clique aqui para acessar a pesquisa Imagens da mulher na narrativa brasileira.

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