Esses tempos que já são outros

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O tempo que passou me colocara num mundo em crise, e todas as pessoas eram de alguma forma convocadas a tomar parte dela. Um candidato morto, uma reviravolta política, uma sucessão de amizades desfeitas em redes sociais por conta dessa mesma política (quantas trocas de calçada seriam necessárias ao menor sinal de um desafeto na rua?), o retorno descontrolado de um vírus a ocupar livre e impunemente novos territórios.

Nunca fui de assistir muita televisão mas de repente havia um clima de pequenas tragédias iminentes; dizem sobre esse clima que, de tão denso, é possível cortá-lo no ar com uma faca bem fina e afiada. Veio a falta d’água e a preocupação real de gente real e próxima, e todas as lendas distantes foram enterradas e discutia-se caminhões-pipa e banho na casa dos amigos. Enquanto eu vivia as melhores coisas da minha vida, o barulho do mundo ao redor era um barulho de desordem e caos. “Mas que tempos são esses, não?”.

Mesmo assim, aos domingos eu ainda comprava meu jornal, mais pelo caderno de literatura que pelas notícias do dia, cada vez mais irreconhecíveis. Só que o caderno, ah, este continuava igual. Os ovos mexidos e a média, muito bom, muito bem, felizmente, os mesmos. E nas mesas ao lado, os casais ainda tomavam longos cafés sem olhares,
sem palavras, psem interesse (nada havia mudado com aquilo que ainda chamam de amor).

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