Sobre o dia em que aprendi a pular o muro

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“Quem quiser carro aqui com 18, que trabalhe e compre”. Acho que meu pai nos dizia isso – a mim e a meu irmão – desde que eu me conhecia por gente, e mesmo lá atrás, na primeira ou na décima ou na septuagésima vez que ouvimos essa frase, nunca me espantei. Em tempo algum. Sabia que era bem normal que determinados pais presenteassem seus filhos com automóveis quando a maioridade chegasse, mas a observação de meu pai sobre os limites da mamata caseira, estranhamente, não me causavam indignação. Pois os anos passaram e, aos recém-completados 19 anos, meu irmão comprava, com recursos próprios, seu primeiro Corsa. É verdade que mãe e pai acabaram inteirando o valor com algo, nada mais ou menos que o equivalente a dois mil reais hoje ou algo assim. Um prêmio pela perseverança. Aos 30, continuo a pé e sem carteira de motorista – que nunca me fez falta realmente – e meu melhor guia é um aplicativo que cadastra as linhas de ônibus que mais uso de casa para o trabalho me mostrando mapas, horários e deslocamento.

Voltando aos meus 13 anos, certa tarde de outono com sol e brisa gelada, resolvi atravessar o portão da escola e pegar um ônibus para o centro da cidade. Determinada, desci no terminal central de ônibus de Campinas e rumei para uma rua onde eu vagamente lembrava haver um sebo que já tinha visitado com minha mãe. O negócio era que, até aquele dia, eu nunca tinha tomado condução desacompanhada dela, embora essa vida de encarar o coletivo tenha começado até mesmo antes dos cinco. Ela conta, a propósito, que quando éramos muito pequenos e ainda não tínhamos a Belina branca, eles chegaram a nos levar de ônibus para ver o papai noel no centro, à noite (o que foi uma baita frustração pois ficamos com medo do velho). Era uma época em que a ferrovia ainda operava e às vezes viajávamos de trem.

Pois lá em 1997, que não era época de GPS nem aparelho celular; fui caminhando e caminhando pelas ruas de movimento frenético, reconhecendo lugares, observando as pessoas; na maior flanêrie. Cheguei ao sebo. Com o dinheiro do lanche da semana comprei quatro LPs do A-ha e “A indisciplina do amor” da Lygia Fagundes Telles. Na volta, estacionei na casa de uma vizinha para ouvir os discos e quando tranquilamente contei a aventura à mãe, ela ficou brava. Muito brava. “Mas eu já tenho 13 anos, já posso tomar o ônibus sozinha”. Depois de meia hora, com o gato no colo, surgiu à janela do meu quarto (eu, jogada na cama, fitava o teto sem entender o que eu poderia ter feito de errado), já fazendo piada. Não estava mais brava. Silenciosamente, ela também já sabia que, com o dinheiro da passagem no bolso, eu rumaria direitinho para onde fosse, na ida e na volta. Haviam me criado para isso.

Recordando esses episódios – do carro à fuga ao centro – vejo como, talvez sem querer, eles entendiam mais sobre nossa independência e capacidade individuais do que jamais podíamos imaginar. É como o dia em que nosso primeiro gato aprendeu a pular o muro e chorei. Mas qual não foi meu espanto e alegria quando o danado pulou o muro de volta, sozinho e ronronando feliz.

PS: O livro da Lygia, tantas vezes lido, relido, grifado e ainda que despedaçado, continua em seu lugar cativo na minha estante de memórias físicas e afetivas do meu antigo quarto.

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