Desencanto y encanto

– Essa é minha estante de livros. Os livros da esquerda são os que já li, na parte da direita, os que não li ainda, ele disse.

De fato havia muitos e bons do lado esquerdo, e ela observava quase maravilhada o que parecia evidente: só alguém que tivesse lido naquela quantidade e qualidade poderia escrever tão bem e com tão rara destreza (textos há um tanto abandonados, bem mais de um ano, é verdade, mas afinal quem tinha tempo?). Não só escrevia bem, como era muito bonito e as opções “curtir” do Facebook dos dois se entrelaçavam lindamente: ambos liam a piauí e a Ilustríssima, mas discordavam quanto ao gosto por crônicas, que ele dizia detestar. Ela que crescera buscando o sentido da vida e o antídoto para a fúria adolescente na crônica de Rubem Braga, Paulo Mendes Campos e outros cavaleiros do apocalipse, nem se importou com o desapreço dele pelo gênero; não era o primeiro nem o último e ademais, se encantava a maioria das coisas que ele dissesse. As convicções dele soavam muito graves e pertinentes. Mas meses depois disso ela não ouviu mais falar de coisas supostamente profundas, não vieram os contos, nem os pré-socráticos e, a bem da verdade, nunca o viu abrir a Ilustríssima. Os livros que chegavam eram de autoajuda corporativa. O rapaz passava as noites de semana e as tardes de domingo assistindo MTV e a despeito do potencial,
nunca mais escreveu. Certa feita, chegou na casa dele um pacote de cinco títulos (de autoajuda): – bom, vou colocar aqui do lado esquerdo, a maioria dessa estante toda eu nem li mesmo, e então ela soube o que era desencanto. Ou uma fraude.

História de quando mesmo na impermanência, o encanto é uma dádiva presa na memória

Anos depois e num passado recente, quase refeita de mais uma vez em que – como colocaria F. Scott Fitzgerald – o mal se arrastara para perto dela sob a máscara da beleza e da inteligência, ela conheceu um argentino numa roda de samba que encerrava um domingo já na cadência do baião. Até que tivessem que sair quando a música acabou e o bar fechou, a conversa enveredou para histórias de xamãs, viagens pelo mundo e literatura latino-americana, depois para um sussuro de buenos días em respeito ao Out of our heads dos Rolling Stones que silenciosamente girava no toca-discos dela às seis da manhã da segunda-feira.

Até que ele em breve voltasse para Buenos Aires, da impermanência dos encontros entre os dois, com ela ficaram algumas coisas. O Dostoiévski de 1963 empoeirado foi a primeira delas, depois a maneira dele olhar para o teto e em seguida fechar os olhos sorrindo de realização; veio também a memória dela na ponta dos pés tratando, sem quase dar conta, de alcançar os ombros largos e bem feitos dele; mais outros quatro livros em espanhol que ganharam espaço na estante com as histórias dele nos aeroportos pelo mundo; em seguida a lembrança de um olhar livre e iluminado e o delicioso sotaque nas frases das quais hoje ela talvez nem recorde inteiras; por fim o momento em que ela pegou na recepção do hotel o livro do Eduardo Galeano que dejaste antes de irte.

20140727-235552-86152389.jpg

Anúncios

Um comentário sobre “Desencanto y encanto

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s