O café da livraria | Mestiço, Livraria Martins Fontes Paulista

Visão geral do Mestiço: tranquilo e aconchegante
Visão geral do Mestiço: tranquilo e aconchegante
Mestiço, Livraria Martins Fontes Paulista
Funciona de segunda a sexta, das 9h às 22h, aos sábados, das 10h às 20h, e aos domingos e feriados, das 14h às 20h.
 
Dando continuidade à série O café da livraria – o primeiro post sobre o café da Livraria da Vila está aqui -, chegou a vez do Mestiço, que fica no segundo piso da livraria Martins Fontes Paulista, unidade da Avenida Paulista. Para chegar até lá, é preciso entrar na parte principal da loja (assim que você entra no prédio, há um ambiente à parte, à esquerda, voltado mais aos livros sobre arte, cinema e música) subir a escada helicoidal que dá acesso à parte de linguística, idiomas, comunicação, dicionários e voilá. Pequeno, com três ou quatro mesinhas, algumas banquetas, wi-fi grátis e rápido, além de jornais e revistas, o Mestiço é um café intimista e aconchegante. A última visita para esta avaliação foi feita numa tarde de muita chuva, no dia seguinte à derrota por 7×1 da seleção brasileira para a Alemanha (na Avenida Paulista, hordas de argentinos passeavam e alguns gritavam “Siete, siete!!” para um brasileiro que passou apostando em 4×1 para a Holanda no jogo que aconteceria mais tarde – e que, ao contrário, levou nossos hermanos para a final). Lá dentro, o que impera é o sossego, entremeado pelo burburinho quase ocasional dos visitantes. 
 
Fizemos uma longa pausa entre os livros do térreo antes de subir para o café e, quando desci para buscar um título de que havia me esquecido, a Kaísa engatou um papo com um professor universitário especializado em literatura africana, da qual ela é muito fã. A troca de ideias começou porque ela trazia, do acervo da livraria, títulos dos angolanos Ondjaki e Pepetela – provando que as livrarias e seus cafés são lugares ótimos para conhecer gente interessante.
 
Bolo de coco, bolo de nozes e drinks quentes com café: tudo muito bem feito e gostoso
Bolo de coco, bolo de nozes e drinks quentes com café: tudo muito bem feito e gostoso
O atendimento no Mestiço é bastante cordial e cuidadoso, e desta vez decidimos trocar o expresso comum pelo Capuccino (R$ 7) e o Irlanda (R$ 12), uma mistura de leite vaporizado, Bailey’s, café e calda de chocolate, drinks servidos com cuidado e em boa quantidade. Para acompanhar, bolo de nozes (R$ 9) e bolo molhado de coco e chocolate belga (R$ 8), que estavam, ambos, fresquinhos e gostosos. Para cortar o efeito do doce – confesso que prefiro salgados – vinho chileno Carmen carmenére (R$ 18) e água com gás (R$ 4) para terminar a tarde.
 
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Infelizmente, o café serve somente esse rótulo de vinho e em garrafinhas de cerca de 187 ml, fica um pouco mais caro que a média e vem na medida para uma pessoa. O cardápio traz a opção de vinho branco (que não tinha no dia) e garrafinha de Baby Chandon. Se houvesse meias-garrafas, seria excelente. Recomendo ainda as empanadas chilenas, que tive oportunidade de provar em outra ocasião.
 
Enfim, o Mestiço é dos mais aconchegantes que conheço, e vale a visita para quem quer experimentar comidinhas simples, saborear cafés gostosos e ter momentos de paz. Este café é uma “extensão” do Mestiço Restaurante e Bar, que fica na Consolação e serve comida contemporânea, com toques tailandeses e baianos. Também vale a visita. 
 
Avaliação de acessibilidade*
  • O café é inacessível para os cadeirantes e para as pessoas de mobilidade reduzida. Ele está em pavimento intermediário e distante do elevador.
  • Há algumas áreas de atendimento e consulta em barreiras de altura, ou seja, abaixo 2.10m, que não estão sinalizadas.   
  • Escadas helicoidais tendem a ser inacessíveis, porém compreendo que as de madeira são as originais do edifício. O aconselhado nesse caso é que os degraus tenham diferenciação contrastante e que o corrimão obedeça a altura e o diâmetro máximo conforme a NBR 9050. 
  • O sanitário adaptado está localizado no pavimento administrativo. O percurso entre o elevador e o sanitário causa certo desconforto, como indicado pelos funcionários, a pessoa com deficiência percorre o terraço descoberto para acessá-lo.
 
*A avaliação de acessibilidade foi feita pela Kaísa Isabel, que é arquiteta certificada em acessibilidade pela SMPED/SP. (Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência e Mobilidade Reduzida)
 
Vale também – e muito! 
Vista da parte superior da loja, próximo ao café
Vista da parte superior da loja, próximo ao café
  • Parece pequena, mas a Martins Fontes tem 1000 m², e uma seleção variadíssima de títulos: são 120 mil no acervo da loja, entre nacionais e internacionais. Pelo site, dá para escolher entre 700 mil. No dia em que estivemos lá, a livraria também participava da promoção de até 50% de desconto nos livros da editora Cosac Naify.
  • As poltronas são poucas, mas como o local é tranquilo, sempre há alguma disponível. E são muito, muito confortáveis.
    Poltronas confortáveis e... livres!
    Poltronas confortáveis e… livres!
  • Particularmente, gosto muito da identidade visual, meio retrô, da livraria. E se tem uma coisa que me encanta e que valorizo são marcadores de livro. Os que recebi assim que paguei pelos livros são muito bonitos. 
    Marcadores com a cara da identidade visual da loja
    Marcadores com a cara da identidade visual da loja
  • Em quase todas as vezes que estive na Martins Fontes, estava rolando algum lançamento de livro. Percebi que a livraria não tem uma revista, mas o site traz todas as informações sobre eventos em suas unidades.
  • E por falar em eventos, é lá que acontece, mensalmente, o Clube de Leitura Penguin – Companhia das Letras. Seria bem mais legal se uma quantidade maior de pessoas participasse desses encontros. 
  • Em São Paulo, além da Avenida Paulista, há outras duas lojas. Santos também conta uma uma unidade.
O que eu levei desta vez
Logo após sair do café, não resisti e levei para casa Música para camaleões, de Truman Capote (Companhia das Letras, 2006) e O coronel Chabert, de Honoré de Balzac (Penguin e Companhia das Letras, 2013). Capote porque ele é genial e o último pela relação direta com um livro que eu havia acabado de terminar, que é Os Enamoramentos, de Javier Marías (Companhia das Letras, 2011). No térreo há alguns cantinhos com centenas de livros de bolso. 
 

 

Das leituras | ‘Dias perfeitos’, de Raphael Montes

Dias perfeitos: aquele livro para ler de uma tacada só (e ter pesadelos)
Dias perfeitos: aquele livro para ler de uma tacada só (e ter pesadelos)

“Fez cortes nas articulações, divertindo-se ao ouvir o barulhinho peculiar dos membros inferiores soltos na altura da virilha. Poc. Lembrava um vidro de palmito sendo aberto.”
(Trecho de Dias perfeitos, de Raphael Montes. Companhia das Letras, 2014)

Comecei a ler Dias perfeitos às 15h30 desta última quinta-feira e terminei apenas seis horas depois, o que já diz bastante sobre o ritmo da narrativa e grau de envolvimento ao qual o autor Raphael Montes – de apenas 23 anos – me submeteu. Fui fã de literatura policial na adolescência, e talvez este seja o primeiro do gênero que retomei depois de adulta. O livro descreve a crescente obsessão do solitário estudante de medicina Téo pela “curtindo a vida adoidada” e também universitária Clarice, após conhecê-la num churrasco. Não quero dar spoilers por aqui, apenas adianto que até conhecer a menina e sequestrá-la para que ela experimente, ao lado dele, o amor em plenitude numa série de ‘dias perfeitos’, o melhor lugar do mundo para Téo era a aula de anatomia e sua melhor amiga, uma defunta chamada Gertrudes. Violência, perversidade, sadismo, além de um aprofundamento tão rico numa mente doentia que dá gosto de ler. De quebra, ganha-se algum material para pesadelos pós-leitura. E pensar que tudo se passa no Rio de Janeiro…

Não sei se Raphael Montes “está entre os mais brilhantes ficcionistas jovens”, como afirma Scott Turow logo no adesivo da capa. Comprei este livro logo após o lançamento, e me recordo bem de todo o barulho e promoção em torno do título, que é da Companhia das Letras, e a ótima recepção da crítica. No entanto, a narrativa em muitos aspectos lembra livros infanto-juvenis, há uma ou outra passagem que poderia ser cortada, algumas repetições e vícios (o autor parece gostar muito do adjetivo “ofensivo”) e soa como se a parte final tivesse recebido um pouco menos de esmero no tratamento; senti pressa nas entrelinhas. De qualquer maneira, é um livro que prende e não dá um minuto de sossego. Se o autor ainda “não é tudo isso”, vale a pena acompanhar sua obra evoluir e amadurecer.

Onde eu comprei? Na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, Avenida Paulista, São Paulo.

A palavra que dança e a palavra ordinária

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Há dias em que a gente fica procurando um adjetivo daqueles bem certeiros para explicar o que sente. Nessas horas penso na minha cabeça como um depósito de milhares de pastinhas enfileiradas, enfeitadas com marcadores coloridos em ordem sináptica; fico matutando numa espécie de corrida maluca de sinônimos nos dicionários que moram lá dentro com suas páginas soltas.

Teve um dia desses que foi assim. Porque estava muito chateada – daquelas chateações propícias às lágrimas fáceis -, entrei no metrô tentando decidir se o que eu sentia era tristeza ou exaustão (os dois juntos ou talvez separados?), angústia ou desamparo. Pois tirante a cafonice do termo, decidi por bem que me sentia “miserável”. Engraçado que, diante da pergunta – como está o fulano?, quando se sabe que alguém está sofrendo por isto ou aquilo, ninguém responde – ah, o fulano se sente miserável hoje… ou – sabe, mas que dia de cão, me sinto miserável. Nunca ouvi quem descrevesse a si ou ao outro desta maneira. É como dizer de um sujeito muito bravo: – cuidado que hoje ele está alterado, saiu daqui furibundo!

Uma feirinha tão sortida de palavras a explorar e ninguém está furibundo, quiçá miserável. A verdade é que – penso eu – somos pouco criativos na utilização de recursos linguisticamente dramáticos, essenciais para o que chamamos, eu e uma amiga, de “mexicanização do mundo”: se a vida com mais drama não se torna mais fácil, pelo menos deixa a história mais interessante. É a diferença do velório de silêncio, grama verde e choro contido para o velório com as lágrimas das carpideiras e a emoção da tia chorosa escapando às engrenagens; a distância imperiosa entre o grupo de mariachis e a música de elevador. Existe o prazer de buscar e guardar em meio a tanto diálogo ordinário, como para compor uma rara coleção, palavras que dançam, passeiam, dão voltas e elegantes piruetas ao largo do trivial. Mas há, sempre há quem saiba, sem querer e por atavismo ou sei lá o quê, surpreender com o pitoresco. No dia seguinte àquele que me descobri não apenas um bicho triste mas miserável – e já devidamente curada de minha miserabilidade-, numa conversa meio boba e desinteressada, ao perguntar a um amigo o que ele pensava de um outro, ouvi: – esse rapaz é, sem erro, um temerário. Um te-me-rá-rio -, disse, marcando bem cada sílaba do adjetivo. Este eu guardei, sorrindo satisfeita, na caixinha das palavras dançarinas.

Leitura e (in)disciplina: um monstro que volta para debaixo da cama

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Este é o primeiro post desde que coloquei no ar a página oficial do blog no Facebook, mas justifico a demora com a divulgação de posts mais antigos na timeline (especialmente aquele que conta como meu desespero infantil em aprender a ler me fez invadir uma escola aos cinco anos de idade, o que explica meu desassossego delicioso e eterno em relação à literatura) e claro, com determinados acontecimentos que me pediram dividir o tempo entre o trabalho comum e a preparação simultânea de textos para dois livros bem distintos.

De qualquer maneira, o retorno foi muito, muito bom. Não só minha mãe disse que estava muito orgulhosa de mim e a ponto de decorar todos os post, como amigos e novos seguidores me pediram resenhas, mais avaliações de café, dicas de leitura; muitos adoraram as ilustrações e essa ou aquela história. Bom, para mim tudo isso diz muito sobre o que faz total sentido na vida.


Em algum final de semana gelado deste último mês, enquanto eu lia já a ponto de terminar O caminho de Ida, do Ricardo Piglia (Companhia das Letras, 2014), me dei conta de que aquela era a primeira vez em meses que eu conseguia começar e terminar a leitura de um único volume em menos de dois dias. Sem dividir a atenção com outros quatro livros, sem pausar a leitura de dois deles e retomar dali a quinze dias, além de emendar com mais outro. Ali constatei que, ao que tudo indicava, estaria chegando ao fim um longo ciclo de ansiedade – provocada por uma montanha russa acontecimentos. O primeiro sinal de que as coisas não vão bem por estas paragens é a indisciplina com a leitura. O retorno da disciplina, como a melhor das medidas de reapropriação íntima e pessoal, é mais um dos pequenos monstros devidamente devolvidos para debaixo da cama.

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O café da livraria | Santo Grão, Livraria da Vila

Em muitas, muitas livrarias, existe um refúgio mágico e convidativo conhecido como “o café da livraria”.

Tem sido inúmeras as vezes em que o primeiro lugar que me vem à cabeça para marcar um encontro é o burburinho agradável de xícaras, páginas virando e discussões comedidas do “café da livraria”, ao invés do barulho e música alta de pubs e bares. Além da tranquilidade em poder levar qualquer livro para a mesa, a maioria desses lugares tem wi-fi aberto (bem legal para quem quer aproveitar para trabalhar) e cardápios geralmente bastante variados. Isso sem contar a possibilidade de sem querer acabar participando de lançamentos bacanas, esbarrar com personalidades e encontrar gente muito interessante (ah, a troca de olhares…).

Pois bem, como o café da livraria está toda semana no meu roteiro, cada vez que visitar um, vou publicar uma avaliação. Sempre que for possível, com a ajuda da Kaísa Isabel, que é arquiteta certificada em acessibilidade pela SMPED/SP
(Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência e Mobilidade Reduzida), o quesito de acesso para deficientes também será contemplado.

Santo Grão, Livraria da Vila
Rua Fradique Coutinho, 915, Vila Madalena, São Paulo

Loja com jeito de casa, escadas que charmosamente dão para outros pavimentos – são quatro andares -, mais e mais estantes, atendimento bacana e uma variadíssima seleção de livros (a riqueza e refinamento dos títulos nas prateleiras não fica devendo nada aos numerosos best-sellers, sem contar a seção infantil, bem sortida), a Livraria da Vila é das mais intimistas para quem busca um pouco de sossego.

Livraria com jeito de casinha e refúgio
Livraria com jeito de casinha e refúgio

Descendo as escadas para o fundo, bem no quintal da loja, entre uma jabuticabeira e uma amoreira, fica o café Santo Grão. A marca está presente em outros endereços na cidade e é bastante conhecida por servir cafés do tipo gourmet. Era por volta de 13h30 e o sol batia lindamente do lado direito, onde há uma mesa de madeira mais ampla em meio a bastante verde, mas escolhi uma das mesinhas do lado esquerdo, na área com mais sombra do quintal.

Quanto ao público, tem de tudo um pouco. Gente solteira e curtindo sozinha – meu caso – senhores e senhoras mais velhos, famílias inteiras, avó que deixou o neto vestido de Batman almoçar bolo de chocolate com suco; é uma delícia de observar o movimento.

Ponto de vista do cantinho menos não tão bonito e nada ensolarado, porém não menos agradável
Ponto de vista do cantinho não tão bonito do Santo Grão e nada ensolarado, porém não menos agradável

Então, já faminta, cheia das boas expectativas e com A era da turbulência do Alan Greenspan e Conversas com Scorsese do Richard Schickel nas mãos, decidi deixar o café por último e almoçar algo mais assim, digamos, substancioso. Pedi o sanduíche de lascas de filet mignon com tomate fresco, cebola roxa, queijo derretido e outras coisinhas no pão ciabatta (R$ 28,50), precedido por um bowl de mix de folhas com tomate cereja. Para acompanhar, meia garrafa de vinho tinto Doña Paula (R$ 38) e água com gás que não lembro o preço. Naquele dia não havia a opção de pedir o vinho por taça, e esta marca é a única que consta do cardápio. Não chega a ser um problema, esse vinho é bastante agradável.

Mix de folhas de entradinha. E tem vinagre balsâmico, que adoro.
Mix de folhas de entradinha. E tem vinagre balsâmico, que adoro.

Tirando o pão um pouco mais seco do que eu esperava, que me fez abandonar garfo e faca na parte mais torradinha (lembrando que certas coisas se come mesmo é com as mãos), estava tudo muito fresquinho e saboroso. Nessa hora tive a certeza de ter encontrado um concorrente à altura do sanduíche de rosbife picante no pão ciabatta servido num certo café de um cinema que abordarei em outra ocasião.

Apenas que: "nham!"
Tiras de filet mignon com tomate e outras coisinhas no pão ciabatta: “nham!”

Para finalizar, pedi o espresso comum do Santo Grão (R$ 5), que agrada sobremaneira, mesmo para uma leiga em cafés gourmet como eu. Como diria mamãe, dá gosto de tomar!

Espresso Santo Grão, muito bom, muito bem
Espresso Santo Grão, muito bom, muito bem

Pontos fracos

  • Assim que me sentei à mesinha, dois ou três atendentes da cafeteria discutiam sobre o que entendi ser um pedido feito de forma errada por um deles. A discussão começou entre as mesas e passou para o corredor lateral, perturbando a paz do ambiente e fazendo alguns olhares curiosos e incomodados se levantarem por detrás dos livros. O quiproquó durou uns dez minutos. Depois, devo ter passado mais umas duas horas por lá no mais santo estado de contemplação literária.
  • As escadas são charmosas, mas o acesso para deficientes fica praticamente impossível. Em breve coloco uma avaliação sobre esse quesito por aqui.

Vale também

  • Na entrada da loja, retirar um exemplar da revista Vila Cultural. Naquele dia a edição de junho ainda não estava pronta, mas a programação de lançamentos, palestras, eventos infantis, tudo gratuito, é muito bacana. No dia 22/5, por exemplo, tinha rolado um clube de leitura com a escritora uruguaia Inés Bortagaray, autora do recém-lançado romance Um, dois e já. A agenda de eventos também é atualizada constantemente no site.
  • Se cadastrar no clube de fidelidade da loja. É só informar nome completo e CPF no caixa e zás.
  • As poltronas espalhadas pela livraria não são muitas, mas são bem convidativas para sentar e ficar.
  • Em São Paulo, tem mais unidades da Livraria da Vila: Lorena, Shopping JK Iguatemi, Shopping Pátio Higienópolis e Moema. Campinas e Curitiba também contam com uma cada.

O que eu levei desta vez
A ideia era encontrar para uma amiga um exemplar de O que o dinheiro não compra, do Michael Sandel, mas estava em falta. Não resisti ao apelo das novas edições da Simone de Beauvoir da Nova Fronteira e levei para casa A força da idade, livro autobiográfico que retrata o período da vida da autora que a fez passar da juventude à maturidade.

Novo endereço do blog

Comecei a ler um livro e nunca mais tive descanso. Depois de muitas noites folheando e relendo Paulo Mendes Campos e longas conversas ao WhatsApp com K., finalmente o blog tem nome novo. E antes que perguntem “mas qual é mesmo o motivo da mudança de tua graça?”, digo que aguardem, pois falta ainda  que fiquem prontos os novos vestidos e sapatos da datilógrafa.

(…) Finalmente criei coragem para mostrar um texto meu numa publicação que é lida por mais de quinze pessoas. Senti um arrepio de identificação e alegria quando li essa frase na reportagem Amor Canino de Pablo Scioscia*, publicada na piauí deste mês. Mudanças vêm por aí.

*Evidente que o texto na íntegra do moço nada tem a ver com coragem para escrever, e por isso mesmo tenham a bondade de visitá-lo. Principalmente se o leitor tem problemas com cachorros incríveis e desobedientes.

Saudades dentro de gavetas ao mar

Conversava com K. sobre saudade, então me saí com essa, que a saudade e seus objetos são coisas que se guarda numa gaveta. Primeiro a gente reluta, mas é obrigada a guardar e às vezes tira e às vezes dói como se fosse antes. E logo eu lembrei de Saudade da Lygia Fagundes Telles, que me marcou muito porque dizia: como quando se tira um vestido velho do baú, um vestido que não é para usar, só para olhar. Só para ver como ele era. Depois a gente dobra de novo e guarda mas não se cogita em jogar fora ou dar. Acho que saudade é isso.

Foi por causa desta conversa sobre saudade e sobre as coisas que ganhei um desenho que me arrepiou até a alma. De repente, vi minhas cômodas e criados-mudos vitorianos afundados e quase esquecidos no fundo do mar.

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Verniz, pout-pourri e papel bonito

O desenho “Li(y)gia” conseguiu ser finalizado após várias explicações inúteis sobre as benfeitorias em uma certa gaveta.

À estibordo! 

Sem mais.

Observação:

Apesar do conteúdo desconhecido, os móveis foram tratados, lixados e não apresentam pintura tóxica. Não polua os mares. http://www.greenpeace.org/

(Saudade” – Lygia Fagundes Telles)

Mas eu achei uma gaveta para eles (…) – K. me disse – uma mais bonitinha bem enfeitada e com sachê (…) mas é uma gaveta como as outras. Gavetas que fecho, abro, limpo, viro um no lixo de vez, passo para uma gaveta mais simples. Mas são gavetas. E saudade não é relacionamento.

***

N., que está se mudando para um apartamento onde viverá sozinha, me indaga: – Eu queria fazer um cantinho só para você, mas como eu queria agradar todos os amigos, acho que não vou saber como colocar um Mickey Mouse ao lado de uma fotografia da Frida Kahlo.

Expliquei que quando uma dúvida assim surgisse, ela lembrasse que Diego Rivera fizera uma mural bem no Rockefeller Center e que isso explicava que sempre é possível conciliar dois mundos.

Tem coisa que se come com as mãos

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Manhã de feriado na padaria, interrompo a mordida no bauru – meu deus, o queijo derretido, uma angústia a ser aplacada e o presunto e o tomate no ponto – porque me espanto com a menina da minha idade comendo um pão com manteiga na chapa com garfo e faca.

“Olha lá, Marina!”
“Quê?”
“A menina come pão assim”
“Mas não pode. Isso não pode.”
“É, não pode. Tem coisa que não pode.”

E como é vasto o reino invisível de sutilezas mundanas, ao nosso lado senta o mesmo cara a quem vi ensinar à filha de quase três anos – último setembro, mesma padaria – como comer pão na chapa acompanhado de pingado. Dobrar ao meio, de comprido – como fazem os paulistanos, dar uma boa mordida (“uma delícia, não é, filha?”). Pensei naquela hora que ela estava aprendendo a encontrar alegria nas pequenas coisas, que a felicidade também morava nas padarias e torcendo para que anos mais tarde ela se lembrasse com carinho do gesto do pai.

Quando voltei os olhos para a menina da minha idade, ela já usava o garfo e a faca para matar um mini sonho de creme. Mas o que fazer com o açúcar de confeiteiro desperdiçado sobre a planície do prato de sobremesa? Então eu pensei que talvez ela não saberia nunca o que é a felicidade de padaria. Também me perguntei se gente que não pega a felicidade com as mãos é capaz de ter orgasmos.

 

O sexo é o consolo que a gente tem quando o amor não nos alcança.

(Memórias de minhas putas tristes)

Isto é Gabriel García Márquez sem querer descrevendo toda uma geração em uma única frase. Quando ouço as histórias dos meus contemporâneos (com 30 anos já convém usar a expressão meus contemporâneos?) e brinco de overthinking com as minhas próprias, tenho a certeza que deve haver em algum canto uma chave invisível. E desde que essa chave foi girada num tempo-espaço desconhecido mas recente, o medo e a vergonha de tirar a roupa se tornaram infinitesimalmente menores que o medo, a vergonha e o perigo de desconstruir nossa persona para que o outro entre – e quebre tudo.

Guardo uma ternura especial pela personagem Lorena de As Meninas, da Lygia Fagundes Telles, que em 1973 profetizava que chegará o dia em que a nudez dos olhos será mais excitante que a do sexo. Pura convenção achar o sexo obsceno.

***

E porque eu reconheço a beleza quando a vejo, desenho “Para PCG” de autoria da menina Kaísa. Na horas livres, jogamos pedras na águia que vem atacar o fígado dos nossos prometeus (voa longe, desgraça!).

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Freud comeria um doce interpretando meus sonhos

Na madrugada de sábado acordei paralisada de medo. Dez minutos para o coração acalmar da disparada, movimento a perna esquerda enquanto me dou conta que era só um pesadelo. Na última cena, num veículo alto em movimento pela estrada de um cenário estilo “Mad Max do absurdo” eu derrubava um morto-vivo escada abaixo, que retornava e eu quando eu lhe chutava a cabeça, o bicho caía e voltava e eu empurrava, e ele caía e com mais um chute eu carimbava a criatura, sem contar todos os outros dos quais eu já havia me livrado ou encarado presa num lugar que me fazia morrer de medo. De ontem para hoje, mais um cenário análogo: desta vez, embora me perseguisse uma força oculta que novamente me matava de medo, duas ou três vezes percebi o símbolo de uma chave antiga e lindamente desenhada em tetos ou paredes.

Moral da história: lutar contra mortos-vivos é uma coisa que cansa a gente.

***
Please stop wondering why you feel so sad when you already know (already know)
You already know, oh, it’s time to go!

Orfeu e Eurídice estampam a capa do álbum Reflektor, do Arcade Fire. A imagem é linda e o conjunto de músicas, como a lira de Orfeu, me encanta há alguns dias, e cada uma delas se molda a algum aspecto da vida e me faz sorrir por aí.