Readgeek: para quem precisa de uma ideia de livro (e não quer se decepcionar)

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Bye, bye, bad books! We promise, we know what books you want!

É isso mesmo o que todo mundo anda falando: o Readgeek, lançado em janeiro deste ano e ainda na versão beta, é o Netflix dos livros. No esquema “se você gostou de um título x, com certeza vai se interessar por z”, o site utiliza algoritmos para indicar os próximos favoritos do usuário com base nos livros que ele já avaliou. Para se registrar, é preciso dar nota inicialmente a dez livros, numa escala de 0 a 10. E, é claro, a qualidade das recomendações melhora na medida em que aumenta a lista de obras avaliadas.

Principais características:

  • A interface do site é simples e traz quatro funções principais: rate books (avaliar), discover books (descobrir), my bookshelf  – “estante” com lista dos rated (avaliados), bookmarked (favoritos), mine (os que você já tem) e os adicionados à wishlist -, e find friends (encontrar amigos);

    discover

  • No menu superior direito é onde mora a mágica: clicando em Discover – reading adventures, o Readgeek carrega a tal lista de livros recomendados para o seu perfil. Please be patient while we send our magic elves down to the library.
    They are back with your suggestions any moment…, diz a mensagem de espera. Simpático, não?
  • Se na lista de recomendados aparecer um livro que não tenha nada a ver com você, é só clicar em not for me, o que obviamente ajudará o sistema a não vir novamente títulos indesejados;
  • Caso precise restringir a busca a um livro específico, basta indicar autor, título ou ISBN. Dos dez primeiros que adicionei, um não foi encontrado na base de dados. Nessa caso, o Readgeek oferece a opção de buscar o título para importar seus dados de uma fonte externa, no entanto, a única opção disponível é a German National Library (o que, confesso, não me ajudou muito, mas é do país de origem dos criadores);
  • É possível não só saber das preferências dos amigos da sua rede, mas também visualizar as avaliações de outros usuários com preferências semelhantes às suas;
  • wishlist convenientemente traz um link de consulta aos preços no site da Amazon Brasil. Fiz o teste com o livro Tu não te moves de ti, da Hilda Hilst (que ando desejando muito, por sinal) e descobri que está R$ 19,29 ou zero reais para baixar no programa kindleunlimited, que depois dos 30 dias gratuitos não é bem “zero reais”, mas é isso aí;
  • Tem uma espécie de inbox para trocar mensagens, mas só com os amigos de sua rede;
  • Infelizmente não dá para personalizar as estantes, mas atende bem quem quer começar a organizar as obras entre lidos, os que quero ler e aqueles que estou lendo e até escrever resenhas.

Site ou app? Só site, em inglês, espanhol ou alemão. Vale ressaltar que é muito importante, ao preencher o perfil, indicar sua língua nativa e outras que você entenda, tudo para melhorar o mecanismo de recomendações de leitura.
E ainda tem essa: página do Readgeek no Facebook. Tem pouco mais de mil curtidas ainda, está todinha em alemão, mas por que não dar uma força?

Opinião: Não poder utilizar o site como app no smartphone é um detalhezinho de peso, mas acredito que seja só uma questão de tempo até os criadores disponibilizarem para download, rezemos! Até agora posso dizer que os tais algoritmos trabalharam bem a meu favor e me recomendaram livros/autores que com certeza eu leria: Borges, Tolstói, Jane Austen, Philip Larkin, García Marquez… Enfim, para quem está precisando daquela ideia de livro para ler, não sabe para qual seção enveredar na livraria e não quer se decepcionar, o Readgeek é boa, muito boa escolha.

Sites e apps para organizar livros: qual é o melhor?

Entre todas as maravilhas baixáveis da internet, me parece que os aplicativos para catalogação de livros estão em plena multiplicação. Guardados os exageros, da semana passada pra cá comecei a usar duas novidades, o Readgeek – que surgiu como o Netflix dos livros – e hoje mesmo a versão beta do Livreto, e dele só posso dizer que estamos nos conhecendo melhor. Dois anos atrás, todo mundo usava o Skoob, que acabei abandonando depois de baixar o Goodreads, mas logo disseram que o Skoob melhorou de interface e… qual escolher?

Como certamente não sou a única a me perder em meio a tantas opções, resolvi escrever uma série de posts com as principais funcionalidades de cada um. Hoje é dia do Goodreads, que já uso há algum tempo e é muito bom para catalogar a coleção. Depois me digam vocês qual é o melhor dos quatro e vamos lá:

Goodreads 

goodreads-iconCom o slogan meet your next favorite book!, o Goodreads existe desde 2007 e, segundo a própria equipe do site, é a maior rede social para leitores e recomendações de livros: são mais de 20 milhões de usuários.

Principais funcionalidades:

  • Saber quais livros os amigos que fazem parte da sua rede estão lendo e optar por receber avisos por e-mail;
  • Adicionar os títulos a diferentes estantes (bookshelves): os você quer ler (to-read), já leu (read), está lendo (currently-reading), bem como registrar seu progresso página a página. Também dá para criar estantes específicas (uma de dicionários, outra de guias de viagem, por exemplo!)
  • É possível pesquisar livros pelo título, autor, ISBN ou (o que é muito legal) usar a câmera do smartphone como scanner de código de barras na versão mobile;
  • Definir um reading challenge para 2015;
  • A partir de 20 avaliações por estrelas, você também começa a receber recomendações personalizadas de títulos;
  • Fazer e ler resenhas (reviews) de outros usuários, fazer listas de favoritos e votar nas listas alheias, responder a enquetes e várias outras atividades;
  • Se inscrever para receber a “frase do dia” (quote of the day). A de hoje é “What I am is tired of jam”, de Russel Hoban.

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    Minha estante de livros para ler no Goodreads para iPhone
  • Participar de grupos de discussão (Novels, Great African Reads, Literature from 1800 to 1920, etc), enfim, não só as opções são inúmeras como você pode criar seu próprio grupo;
  • Votar no prêmio Goodreads Choice Awards: a lista de melhores livros de 2014 já saiu, resultado de mais de 3,3 milhões de votos só de usuários da rede. O Goodreads aponta ainda se algum livro das suas estantes está concorrendo ao prêmio;
  • Há vários e-books para download gratuito;
  • Logando com o Facebook, ele localiza seus contatos que também usam o site/app e permite compartilhar suas atualizações de leitura na linha do tempo.

Site ou app? Os dois! É possível usar o Goodreads direto no desktop ou na versão mobile: é só baixar no iTunes para iPhone e iPad (inglês/italiano) ou no Google Play (para Android) em inglês, espanhol ou hebraico.
E ainda tem essa: Quer trabalhar no Goodreads em São Francisco? Eles estão contratando.

Opinião: Como disse acima, já uso há algum tempo, desde 2013, e é realmente ótimo para “inventariar” os livros da estante, o scanner funciona que é uma beleza, você até pensa que está brincando de mini-biblioteca! No entanto, já aconteceu algumas vezes de não haver um ou outro título que busquei na base de dados. Acabo utilizando mais o aplicativo pelo iPhone que o site (que dizem ser bem melhor que a versão mobile), e sempre funcionou direitinho. Poderia aproveitar bem mais das funcionalidades bacanas do Goodreads; o que falta é programação mental e organização minha para cadastrar todos os livros, atualizar direitinho os progressos, dar baixa no que já foi lido e entrar na corrida do reading challenge. Por isso, meus caros, o Goodreads é muito, muito bacana, mas requer disciplina – como qualquer outro vai requerer. Observermos nas próximas avaliações!

No próximo post sobre apps e sites para organizar livros, voltarei com o Readgeek. 🙂

No Twitter, demorou mas chegou

Pois era só o que faltava: o Comecei a ler um livro e nunca mais tive descanso agora tem uma página no Twitter! A ideia por lá é também publicar micro-trechos escolhidos (sim, sim, aqueles que pesco com carinho todos os dias e prometo que serão diferentes daqueles que vão na fanpage) e divulgar mais a parte de notícias do meio literário, lançamentos, resenhas, etc. A página oficial do Facebook já está com mais de 9.500 seguidores, mas lá na outra rede a audiência ainda está magrinha, magrinha, então se o querido(a) leitor(a) quiser acompanhar este humilde blog também por lá, a arroba é @comeceialer.

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Mas não é uma gracinha?

Métodos para evitar a tentação literária e a autora de 2014

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Ao longo do ano passado, a quantidade de livros que adquiri excedeu o espaço disponível no meu quarto. Há livros por todo o rack, ocupando as partes de frente e de trás das prateleiras, subindo pelo criado-mudo e agora por cima da caixa de discos; acabo de encomendar uma estante nova e minha expectativa (tenho muitas expectativas a meu próprio respeito, assim como Alice pratico o auto-aconselhamento) é eliminar a fila de leitura com prudência e auto-controle. Ontem encontrei um Nelson Rodrigues novíssimo e uma Marina Colasanti a R$ 15 – OS DOIS – na rodoviária de Campinas, mas juro que foi só ontem. Amanhã e depois de amanhã evitarei todas as tentações.


E entre tudo o que foi lido em 2014, com destaque para Os enamoramentos do Javier Marías e a releitura de Cem anos de solidão, escolhi Fazes-me falta como o livro do ano, bem como a autora, a portuguesa Inês Pedrosa, aquela que mais marcou os dias de revezamento entre um título e outro. Na sequencia, também dela, emendei Dentro de ti ver o mar, aproveitando a Black Friday para arrematar a preços módicos mais três títulos. Uma passeada pela Goodreads deixa claro que as avaliações dos leitores sobre Fazes-me falta são oito ou oitenta. Resumidamente, trata-se da troca reconciliadora de monólogos entre a mulher que morreu e o homem que ficou, entre pessoas que precisam passar e repassar a limpo os desígnios da paixão e da amizade para compreender como pode ser possível seguir adiante quando tudo não é mais que ausência e pontas soltas.

Fazes-me falta não é linear, não é compartimentado, não se trata de um livro com início, meio e fim; arrisco que pode soar fácil de levar para os que se deliciam com narrativas de fluxo de pensamento e digressões e um tormento para os metódicos. Porém digo que não foi pela estrutura que o escolhi, pois foi da seguinte maneira: acabara de sentar à mesa de um café de livraria e uma amiga já o folheava:

– Ligia, escute isso:
Comecei a desaparecer no dia em que os meus olhos se afundaram nos teus. Agora que os teus olhos se fecharam sei que não voltarás a devolver-me os meus.

Quando o peguei nas mãos, todas as passagens, cada folha me parecia mais bela que a outra. Razão pela qual a página no Facebook também sofreu um flood bem-intencionado de trechos de Inês Pedrosa, minha eleita de 2014. Tem mais sobre ela aqui.

“Não importa o que se ama. Importa a matéria desse amor. As sucessivas camadas de vida que se atiram para dentro desse amor. As palavras são um princípio – nem sequer o princípio. Porque no amor os princípios, os meios, os fins são apenas fragmentos de uma história que continua para lá dela, antes e depois do sangue breve de uma vida. Tudo serve a essa obsessão de verdade a que chamamos amor. O sujo, a luz, o áspero, o macio, a falha, a persistência.”
– Inês Pedrosa in Fazes-me falta


Devo aproveitar o espaço para prometer que daqui pra frente tudo vai ser diferente e esta blogueira escreverá com bem mais frequencia em 2015.

A paixão vai te fazer trocar a leitura de hoje (e subtrair seu quinhão de produtividade)

Couple readingHoje seria o caso de pedir sinceras desculpas pelo longo hiato e dizer que vem aí um post com as dicas de livros para o Natal, mas quero apenas alertar a nobre leitora, o nobre leitor, acerca daquele sentimento que é um tapa no meio das ideias, uma crise de labirintite; atrapalha mais que ajuda, interrompe a leitura, emperra o fluxo de ideias no meio de um trabalho importante. Te faz ler três vezes o mesmo parágrafo e esquecer sinônimos, antônimos, alternativas estilísticas.

Dia desses você pode ter uma fase ótima de sucessão de ideias e pequenas epifanias violentamente interceptada por isso aí. Quando vai ver, perdeu quatro das oito horas de trabalho e passou vinte e quatro alternando desespero, descontrole e sonhos em vigília. Quando vai ver, fechou o Deleuze & Guattari e já passou da página cem com a Adélia Prado. Já ensaiou abrir a Cecília Meireles, já deu uma espiada no Vinicius de Moraes.

É das coisas mais ridículas que há. É das coisas melhores (e mais deliciosas) que há.

Esses tempos que já são outros

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O tempo que passou me colocara num mundo em crise, e todas as pessoas eram de alguma forma convocadas a tomar parte dela. Um candidato morto, uma reviravolta política, uma sucessão de amizades desfeitas em redes sociais por conta dessa mesma política (quantas trocas de calçada seriam necessárias ao menor sinal de um desafeto na rua?), o retorno descontrolado de um vírus a ocupar livre e impunemente novos territórios.

Nunca fui de assistir muita televisão mas de repente havia um clima de pequenas tragédias iminentes; dizem sobre esse clima que, de tão denso, é possível cortá-lo no ar com uma faca bem fina e afiada. Veio a falta d’água e a preocupação real de gente real e próxima, e todas as lendas distantes foram enterradas e discutia-se caminhões-pipa e banho na casa dos amigos. Enquanto eu vivia as melhores coisas da minha vida, o barulho do mundo ao redor era um barulho de desordem e caos. “Mas que tempos são esses, não?”.

Mesmo assim, aos domingos eu ainda comprava meu jornal, mais pelo caderno de literatura que pelas notícias do dia, cada vez mais irreconhecíveis. Só que o caderno, ah, este continuava igual. Os ovos mexidos e a média, muito bom, muito bem, felizmente, os mesmos. E nas mesas ao lado, os casais ainda tomavam longos cafés sem olhares,
sem palavras, psem interesse (nada havia mudado com aquilo que ainda chamam de amor).

Sobre o dia em que aprendi a pular o muro

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“Quem quiser carro aqui com 18, que trabalhe e compre”. Acho que meu pai nos dizia isso – a mim e a meu irmão – desde que eu me conhecia por gente, e mesmo lá atrás, na primeira ou na décima ou na septuagésima vez que ouvimos essa frase, nunca me espantei. Em tempo algum. Sabia que era bem normal que determinados pais presenteassem seus filhos com automóveis quando a maioridade chegasse, mas a observação de meu pai sobre os limites da mamata caseira, estranhamente, não me causavam indignação. Pois os anos passaram e, aos recém-completados 19 anos, meu irmão comprava, com recursos próprios, seu primeiro Corsa. É verdade que mãe e pai acabaram inteirando o valor com algo, nada mais ou menos que o equivalente a dois mil reais hoje ou algo assim. Um prêmio pela perseverança. Aos 30, continuo a pé e sem carteira de motorista – que nunca me fez falta realmente – e meu melhor guia é um aplicativo que cadastra as linhas de ônibus que mais uso de casa para o trabalho me mostrando mapas, horários e deslocamento.

Voltando aos meus 13 anos, certa tarde de outono com sol e brisa gelada, resolvi atravessar o portão da escola e pegar um ônibus para o centro da cidade. Determinada, desci no terminal central de ônibus de Campinas e rumei para uma rua onde eu vagamente lembrava haver um sebo que já tinha visitado com minha mãe. O negócio era que, até aquele dia, eu nunca tinha tomado condução desacompanhada dela, embora essa vida de encarar o coletivo tenha começado até mesmo antes dos cinco. Ela conta, a propósito, que quando éramos muito pequenos e ainda não tínhamos a Belina branca, eles chegaram a nos levar de ônibus para ver o papai noel no centro, à noite (o que foi uma baita frustração pois ficamos com medo do velho). Era uma época em que a ferrovia ainda operava e às vezes viajávamos de trem.

Pois lá em 1997, que não era época de GPS nem aparelho celular; fui caminhando e caminhando pelas ruas de movimento frenético, reconhecendo lugares, observando as pessoas; na maior flanêrie. Cheguei ao sebo. Com o dinheiro do lanche da semana comprei quatro LPs do A-ha e “A indisciplina do amor” da Lygia Fagundes Telles. Na volta, estacionei na casa de uma vizinha para ouvir os discos e quando tranquilamente contei a aventura à mãe, ela ficou brava. Muito brava. “Mas eu já tenho 13 anos, já posso tomar o ônibus sozinha”. Depois de meia hora, com o gato no colo, surgiu à janela do meu quarto (eu, jogada na cama, fitava o teto sem entender o que eu poderia ter feito de errado), já fazendo piada. Não estava mais brava. Silenciosamente, ela também já sabia que, com o dinheiro da passagem no bolso, eu rumaria direitinho para onde fosse, na ida e na volta. Haviam me criado para isso.

Recordando esses episódios – do carro à fuga ao centro – vejo como, talvez sem querer, eles entendiam mais sobre nossa independência e capacidade individuais do que jamais podíamos imaginar. É como o dia em que nosso primeiro gato aprendeu a pular o muro e chorei. Mas qual não foi meu espanto e alegria quando o danado pulou o muro de volta, sozinho e ronronando feliz.

PS: O livro da Lygia, tantas vezes lido, relido, grifado e ainda que despedaçado, continua em seu lugar cativo na minha estante de memórias físicas e afetivas do meu antigo quarto.