Métodos para evitar a tentação literária e a autora de 2014

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Ao longo do ano passado, a quantidade de livros que adquiri excedeu o espaço disponível no meu quarto. Há livros por todo o rack, ocupando as partes de frente e de trás das prateleiras, subindo pelo criado-mudo e agora por cima da caixa de discos; acabo de encomendar uma estante nova e minha expectativa (tenho muitas expectativas a meu próprio respeito, assim como Alice pratico o auto-aconselhamento) é eliminar a fila de leitura com prudência e auto-controle. Ontem encontrei um Nelson Rodrigues novíssimo e uma Marina Colasanti a R$ 15 – OS DOIS – na rodoviária de Campinas, mas juro que foi só ontem. Amanhã e depois de amanhã evitarei todas as tentações.


E entre tudo o que foi lido em 2014, com destaque para Os enamoramentos do Javier Marías e a releitura de Cem anos de solidão, escolhi Fazes-me falta como o livro do ano, bem como a autora, a portuguesa Inês Pedrosa, aquela que mais marcou os dias de revezamento entre um título e outro. Na sequencia, também dela, emendei Dentro de ti ver o mar, aproveitando a Black Friday para arrematar a preços módicos mais três títulos. Uma passeada pela Goodreads deixa claro que as avaliações dos leitores sobre Fazes-me falta são oito ou oitenta. Resumidamente, trata-se da troca reconciliadora de monólogos entre a mulher que morreu e o homem que ficou, entre pessoas que precisam passar e repassar a limpo os desígnios da paixão e da amizade para compreender como pode ser possível seguir adiante quando tudo não é mais que ausência e pontas soltas.

Fazes-me falta não é linear, não é compartimentado, não se trata de um livro com início, meio e fim; arrisco que pode soar fácil de levar para os que se deliciam com narrativas de fluxo de pensamento e digressões e um tormento para os metódicos. Porém digo que não foi pela estrutura que o escolhi, pois foi da seguinte maneira: acabara de sentar à mesa de um café de livraria e uma amiga já o folheava:

– Ligia, escute isso:
Comecei a desaparecer no dia em que os meus olhos se afundaram nos teus. Agora que os teus olhos se fecharam sei que não voltarás a devolver-me os meus.

Quando o peguei nas mãos, todas as passagens, cada folha me parecia mais bela que a outra. Razão pela qual a página no Facebook também sofreu um flood bem-intencionado de trechos de Inês Pedrosa, minha eleita de 2014. Tem mais sobre ela aqui.

“Não importa o que se ama. Importa a matéria desse amor. As sucessivas camadas de vida que se atiram para dentro desse amor. As palavras são um princípio – nem sequer o princípio. Porque no amor os princípios, os meios, os fins são apenas fragmentos de uma história que continua para lá dela, antes e depois do sangue breve de uma vida. Tudo serve a essa obsessão de verdade a que chamamos amor. O sujo, a luz, o áspero, o macio, a falha, a persistência.”
– Inês Pedrosa in Fazes-me falta


Devo aproveitar o espaço para prometer que daqui pra frente tudo vai ser diferente e esta blogueira escreverá com bem mais frequencia em 2015.

Zack Magiezi: “Tudo que é humano me interessa profundamente”

Zack: "A poesia é um espírito que mora em todas as coisas"
Zack: “A poesia é um espírito que mora em todas as coisas”

Aos 31 anos, Zack Magiezi é o autor das “divagações de uma pessoa a vagar” da página Estranherismo. São poemas, notas, pequenos textos, anotações e outras criações literárias que já concentram mais de 6 mil fãs no Facebook e ganham mais amantes a cada compartilhamento: um único texto de Zack divulgado na timeline da Revista Bula chega a ganhar até 7 mil curtidas de uma tacada só. Em entrevista ao blog Comecei a ler um livro e nunca mais tive descanso, ele revela um pouco sobre a inspiração que está por trás de poemas singelos e sinceros como “Amor nu”.

ComeceiZack, sua história de vida: de onde veio, onde vive, o que você estudou e o que faz da vida todos os dias?
ZM – Sou um paulistano abraçado pela carinhosa cidade de Belo Horizonte, para onde mudei por uma moça e acabei ficando com a cidade. Já estudei um pouco de teologia, história, administração – área em que trabalho – e hoje estou no 4° período do curso de Letras, apaixonado pela área como aqueles apaixonados bobos que gostam até do silêncio das ligações telefônicas. Tenho um bonito palhaço que se chama Quixote que, junto com o seu parceiro Cabeludo, promove saraus pelas praças e também em lugares não convencionais.

ComeceiComo a literatura e a escrita entraram na sua vida?
ZM – Tudo começou com Agatha Christie, aquela senhora sem graça que me deixava mordido de raiva com os seus livros viciantes (para um adolescente); ela que disparou o gatilho para o mundo literário, e assim fui caminhando e fazendo novos amigos. Quanto à escrita, poxa, eu comecei em tons confessionais (pois tenho dificuldade com os sons), fui falando dos meus sentimentos e anotando a minha visão das coisas e do mundo, mas decididamente foi a solidão que me levou para escrita.

Comecei Hoje a página Estranherismo está com quase 7 mil seguidores e de um tempo para cá a página da Revista Bula começou a divulgar seu trabalho também, o que aumentou a projeção dos seus poemas na rede. Como surgiu a ideia da página e como está sendo o retorno das pessoas – e até mesmo o assédio – depois que seus textos passaram a circular mais?
ZM – Tudo começou com uma nota que se chama “Faça amor nu”, que eu publiquei na página de uma amiga que se chama Conti e Afins, a Revista Bula viu e replicou, depois comecei a enviar outras notas diretamente para a revista e algumas foram publicadas. Depois começaram a aparecer umas pessoas queridas me adicionando e a minha página Estranherismo, que antes contava com 200 curtidas, teve um boom e chegamos a esse número. Quanto ao assédio, prefiro chamar de gentilezas. São pessoas que querem conversar e dizer que se identificaram com algo ou agradecer; às quais eu que acabo agradecendo por lerem minhas coisas e elas também acabam me dando inspirações diversas e vamos trocando…

amor nu

Comecei – No prefácio de “Música para camaleões”, Truman Capote diz que começou a escrever muito cedo e que quando isto aconteceu, ele se descobriu acorrentado pelo resto da vida “a um amo nobre mas impiedoso”. Para o filósofo Alain de Botton, escrever é uma atividade que “dá muito trabalho”. Como é a sua relação com a criação literária? A inspiração chega com facilidade e fluidez ou você também enfrenta dias de bloqueio criativo?
ZM – Tenho pra mim que a poesia é um espírito que mora em todas as coisas, tudo pode ser poético, depende da atenção do nosso olhar. Tudo vem meio rápido na cabeça e anoto no caderninho que carrego comigo, uma ideia ou uma palavra, e depois tudo fica mais fácil. O que me causa tensão é quando eu sinto algo e não consigo montar esse algo em palavras, isso me dói e dispara minha mente, a insônia… Esse é meu bloqueio. Sei que existe algo ali e não consigo fazer vir à tona. Agora, há outros momentos quando não tenho nada a dizer e não digo. Acho que silenciar é bom.

Comecei – O que te inspira e vira material para escrever?
ZM – Gosto de conversas, grande parte das minhas notas são de conversas onde um termo aparece e algo pisca para mim. Gosto de brincar com algumas palavras, neologismos, gosto de falar dos sentimentos, dos medos e dores, tudo que é humano me interessa profundamente.

Comecei – Seus poemas muitas vezes soam como os de Leminski, Ana Cristina César, têm uma aura de poesia marginal, haicai… quais são suas referências literárias?
ZM – Nossa! Poxa, esse “soar” me deixou lisonjeado, são dois grandiosos. Além dos dois eu gosto muito do Gabo, Saramago, Pedro Juan Gutiérrez, Baudelaire, Bukowski, Kerouac, Hemingway, Florbela, Valter Hugo Mãe – que estou conhecendo melhor -, e o meus favoritos são os colossais Julio Cortázar e Machado de Assis.

Comecei – E quais livros têm lugar cativo na sua estante?
ZM – “O jogo da amarelinha”, “Histórias de cronópios e famas”, “Cem anos de solidão”, “O filho de mil homens”, “Paris é uma festa”, “A viagem do elefante”, “Flores do mal”, “Misto-quente”, “Dom Quixote”, “Dom Casmurro”, “Trilogia suja de Havana”, etc…

Comecei – Você pensa em publicar sua obra? Faz ideia de quantos poemas já escreveu?
ZM – Talvez venha a acontecer, mas não fico pensando muito nisso. Para mim, dar vazão às coisas é o primordial e acredito que as palavras vão procurar as pessoas certas. Não faço a menor ideia de quantas notas já escrevi e tenho um sério problema de organização.

palhaço Quixote
palhaço Quixote

Das leituras | ‘Dias perfeitos’, de Raphael Montes

Dias perfeitos: aquele livro para ler de uma tacada só (e ter pesadelos)
Dias perfeitos: aquele livro para ler de uma tacada só (e ter pesadelos)

“Fez cortes nas articulações, divertindo-se ao ouvir o barulhinho peculiar dos membros inferiores soltos na altura da virilha. Poc. Lembrava um vidro de palmito sendo aberto.”
(Trecho de Dias perfeitos, de Raphael Montes. Companhia das Letras, 2014)

Comecei a ler Dias perfeitos às 15h30 desta última quinta-feira e terminei apenas seis horas depois, o que já diz bastante sobre o ritmo da narrativa e grau de envolvimento ao qual o autor Raphael Montes – de apenas 23 anos – me submeteu. Fui fã de literatura policial na adolescência, e talvez este seja o primeiro do gênero que retomei depois de adulta. O livro descreve a crescente obsessão do solitário estudante de medicina Téo pela “curtindo a vida adoidada” e também universitária Clarice, após conhecê-la num churrasco. Não quero dar spoilers por aqui, apenas adianto que até conhecer a menina e sequestrá-la para que ela experimente, ao lado dele, o amor em plenitude numa série de ‘dias perfeitos’, o melhor lugar do mundo para Téo era a aula de anatomia e sua melhor amiga, uma defunta chamada Gertrudes. Violência, perversidade, sadismo, além de um aprofundamento tão rico numa mente doentia que dá gosto de ler. De quebra, ganha-se algum material para pesadelos pós-leitura. E pensar que tudo se passa no Rio de Janeiro…

Não sei se Raphael Montes “está entre os mais brilhantes ficcionistas jovens”, como afirma Scott Turow logo no adesivo da capa. Comprei este livro logo após o lançamento, e me recordo bem de todo o barulho e promoção em torno do título, que é da Companhia das Letras, e a ótima recepção da crítica. No entanto, a narrativa em muitos aspectos lembra livros infanto-juvenis, há uma ou outra passagem que poderia ser cortada, algumas repetições e vícios (o autor parece gostar muito do adjetivo “ofensivo”) e soa como se a parte final tivesse recebido um pouco menos de esmero no tratamento; senti pressa nas entrelinhas. De qualquer maneira, é um livro que prende e não dá um minuto de sossego. Se o autor ainda “não é tudo isso”, vale a pena acompanhar sua obra evoluir e amadurecer.

Onde eu comprei? Na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, Avenida Paulista, São Paulo.