Ocupação Hilda Hilst vai até 21 de abril no Itaú Cultural

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Tive uma professora de português na oitava série fez grande parte da classe pelo menos se interessar por Hilda Hilst. Não só porque, segundo ela, se tratava de literatura brasileira da mais fina estirpe, mas porque era “literatura obscena”. E quem, com 14 anos, não queria ler obscenidades, ainda que literárias, gratuitamente logo ali na biblioteca?

O tempo passou e quem se deixou levar pela beleza e meandros nada óbvios da narrativa da escritora, certamente se descobriu apaixonado por Hilda. Erotismo? Apenas um dos componentes do infinito universo de personagens, digressões, referências e emaranhados da autora, que morreu em 2004, aos 84 anos. Como ela mesma definiu: ““Talvez eu tenha escrito com muita complexidade porque a própria vida é complexa… Não há simplicidade nenhuma no ato de existir”.

Pois quem deseja se aprofundar nas idiossincrasias de seu processo criativo e mergulhar em sua história, vai até o dia 21 de abril, em São Paulo, a Ocupação Hilda Hilst, no Itaú Cultural.

O público tem a oportunidade de acompanhar o cotidiano da autora, como se seu trabalho estivesse em elaboração, pois estão expostas notas nas agendas, registros de sonhos, desenhos, reflexões, tudo que por ela era utilizado como fonte de inspiração. Fac-símiles que parte dos originais manuscritos e datilografados também podem ser manipulados.

A lendária Casa do Sol, morada de Hilda em Campinas dos 35 até o fim do vida, onde recebia amigos e artistas, inspira o cenário da exposição.

Vai lá: Ocupação Hilda Hilst. Itaú Cultural, Avenida Paulista, 149.

IX – Do desejo

E por que haverias de querer minha alma
Na tua cama?
Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas
Obscenas, porque era assim que gostávamos.
Mas não menti gozo prazer lascívia
Nem omiti que a alma está além, buscando
Aquele Outro. E te repito: por que haverias
De querer minha alma na tua cama?
Jubila-te da memória de coitos e acertos.
Ou tenta-me de novo. Obriga-me.

– Hilda Hilst

Onde estão as mulheres na literatura brasileira?

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Tente o seguinte exercício: anote num pedaço de papel os primeiros cinco nomes da literatura que vêm à sua cabeça. A maioria é homem ou mulher? Quando você pensa nos livros da escola, quais escritoras além de Clarice Lispector, Cecília Meireles e Cora Coralina, Tatiana Belinky e Ruth Rocha foram recomendadas pelos seus professores? E os personagens dos livros que escolhe, a maior parte é de que gênero?

Aproveitando que se aproxima o Dia Internacional da Mulher (que curiosamente é a data em que nasci – desculpem, não resisti) , estava aqui bem sossegada pesquisando trechos e infos para um post especial sobre oito escritoras que quero fortemente recomendar, quando me deparei com os resultados de uma pesquisa da professora da UnB Regina Dalcastagnè, que resultou no livro “Literatura Brasileira Contemporânea – Um território contestado”, lançado em 2012. De 1990 a 2004, ela mapeou todos os romances brasileiros publicados pelas três editoras mais importantes do país e descobriu que nossa literatura é toda… dominada por homens. Isto significa que mais de 70% dos escritores e dos personagens por eles criados são do sexo masculino. No infográfico abaixo dá para ter uma boa ideia da baixa representatividade da mulher no mundo literário, seja no real ou no inventado.

Quer saber um pouco mais do trabalho da professora Regina? Clique aqui para acessar a pesquisa Imagens da mulher na narrativa brasileira.

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Zack Magiezi: “Tudo que é humano me interessa profundamente”

Zack: "A poesia é um espírito que mora em todas as coisas"
Zack: “A poesia é um espírito que mora em todas as coisas”

Aos 31 anos, Zack Magiezi é o autor das “divagações de uma pessoa a vagar” da página Estranherismo. São poemas, notas, pequenos textos, anotações e outras criações literárias que já concentram mais de 6 mil fãs no Facebook e ganham mais amantes a cada compartilhamento: um único texto de Zack divulgado na timeline da Revista Bula chega a ganhar até 7 mil curtidas de uma tacada só. Em entrevista ao blog Comecei a ler um livro e nunca mais tive descanso, ele revela um pouco sobre a inspiração que está por trás de poemas singelos e sinceros como “Amor nu”.

ComeceiZack, sua história de vida: de onde veio, onde vive, o que você estudou e o que faz da vida todos os dias?
ZM – Sou um paulistano abraçado pela carinhosa cidade de Belo Horizonte, para onde mudei por uma moça e acabei ficando com a cidade. Já estudei um pouco de teologia, história, administração – área em que trabalho – e hoje estou no 4° período do curso de Letras, apaixonado pela área como aqueles apaixonados bobos que gostam até do silêncio das ligações telefônicas. Tenho um bonito palhaço que se chama Quixote que, junto com o seu parceiro Cabeludo, promove saraus pelas praças e também em lugares não convencionais.

ComeceiComo a literatura e a escrita entraram na sua vida?
ZM – Tudo começou com Agatha Christie, aquela senhora sem graça que me deixava mordido de raiva com os seus livros viciantes (para um adolescente); ela que disparou o gatilho para o mundo literário, e assim fui caminhando e fazendo novos amigos. Quanto à escrita, poxa, eu comecei em tons confessionais (pois tenho dificuldade com os sons), fui falando dos meus sentimentos e anotando a minha visão das coisas e do mundo, mas decididamente foi a solidão que me levou para escrita.

Comecei Hoje a página Estranherismo está com quase 7 mil seguidores e de um tempo para cá a página da Revista Bula começou a divulgar seu trabalho também, o que aumentou a projeção dos seus poemas na rede. Como surgiu a ideia da página e como está sendo o retorno das pessoas – e até mesmo o assédio – depois que seus textos passaram a circular mais?
ZM – Tudo começou com uma nota que se chama “Faça amor nu”, que eu publiquei na página de uma amiga que se chama Conti e Afins, a Revista Bula viu e replicou, depois comecei a enviar outras notas diretamente para a revista e algumas foram publicadas. Depois começaram a aparecer umas pessoas queridas me adicionando e a minha página Estranherismo, que antes contava com 200 curtidas, teve um boom e chegamos a esse número. Quanto ao assédio, prefiro chamar de gentilezas. São pessoas que querem conversar e dizer que se identificaram com algo ou agradecer; às quais eu que acabo agradecendo por lerem minhas coisas e elas também acabam me dando inspirações diversas e vamos trocando…

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Comecei – No prefácio de “Música para camaleões”, Truman Capote diz que começou a escrever muito cedo e que quando isto aconteceu, ele se descobriu acorrentado pelo resto da vida “a um amo nobre mas impiedoso”. Para o filósofo Alain de Botton, escrever é uma atividade que “dá muito trabalho”. Como é a sua relação com a criação literária? A inspiração chega com facilidade e fluidez ou você também enfrenta dias de bloqueio criativo?
ZM – Tenho pra mim que a poesia é um espírito que mora em todas as coisas, tudo pode ser poético, depende da atenção do nosso olhar. Tudo vem meio rápido na cabeça e anoto no caderninho que carrego comigo, uma ideia ou uma palavra, e depois tudo fica mais fácil. O que me causa tensão é quando eu sinto algo e não consigo montar esse algo em palavras, isso me dói e dispara minha mente, a insônia… Esse é meu bloqueio. Sei que existe algo ali e não consigo fazer vir à tona. Agora, há outros momentos quando não tenho nada a dizer e não digo. Acho que silenciar é bom.

Comecei – O que te inspira e vira material para escrever?
ZM – Gosto de conversas, grande parte das minhas notas são de conversas onde um termo aparece e algo pisca para mim. Gosto de brincar com algumas palavras, neologismos, gosto de falar dos sentimentos, dos medos e dores, tudo que é humano me interessa profundamente.

Comecei – Seus poemas muitas vezes soam como os de Leminski, Ana Cristina César, têm uma aura de poesia marginal, haicai… quais são suas referências literárias?
ZM – Nossa! Poxa, esse “soar” me deixou lisonjeado, são dois grandiosos. Além dos dois eu gosto muito do Gabo, Saramago, Pedro Juan Gutiérrez, Baudelaire, Bukowski, Kerouac, Hemingway, Florbela, Valter Hugo Mãe – que estou conhecendo melhor -, e o meus favoritos são os colossais Julio Cortázar e Machado de Assis.

Comecei – E quais livros têm lugar cativo na sua estante?
ZM – “O jogo da amarelinha”, “Histórias de cronópios e famas”, “Cem anos de solidão”, “O filho de mil homens”, “Paris é uma festa”, “A viagem do elefante”, “Flores do mal”, “Misto-quente”, “Dom Quixote”, “Dom Casmurro”, “Trilogia suja de Havana”, etc…

Comecei – Você pensa em publicar sua obra? Faz ideia de quantos poemas já escreveu?
ZM – Talvez venha a acontecer, mas não fico pensando muito nisso. Para mim, dar vazão às coisas é o primordial e acredito que as palavras vão procurar as pessoas certas. Não faço a menor ideia de quantas notas já escrevi e tenho um sério problema de organização.

palhaço Quixote
palhaço Quixote

Das leituras | ‘Dias perfeitos’, de Raphael Montes

Dias perfeitos: aquele livro para ler de uma tacada só (e ter pesadelos)
Dias perfeitos: aquele livro para ler de uma tacada só (e ter pesadelos)

“Fez cortes nas articulações, divertindo-se ao ouvir o barulhinho peculiar dos membros inferiores soltos na altura da virilha. Poc. Lembrava um vidro de palmito sendo aberto.”
(Trecho de Dias perfeitos, de Raphael Montes. Companhia das Letras, 2014)

Comecei a ler Dias perfeitos às 15h30 desta última quinta-feira e terminei apenas seis horas depois, o que já diz bastante sobre o ritmo da narrativa e grau de envolvimento ao qual o autor Raphael Montes – de apenas 23 anos – me submeteu. Fui fã de literatura policial na adolescência, e talvez este seja o primeiro do gênero que retomei depois de adulta. O livro descreve a crescente obsessão do solitário estudante de medicina Téo pela “curtindo a vida adoidada” e também universitária Clarice, após conhecê-la num churrasco. Não quero dar spoilers por aqui, apenas adianto que até conhecer a menina e sequestrá-la para que ela experimente, ao lado dele, o amor em plenitude numa série de ‘dias perfeitos’, o melhor lugar do mundo para Téo era a aula de anatomia e sua melhor amiga, uma defunta chamada Gertrudes. Violência, perversidade, sadismo, além de um aprofundamento tão rico numa mente doentia que dá gosto de ler. De quebra, ganha-se algum material para pesadelos pós-leitura. E pensar que tudo se passa no Rio de Janeiro…

Não sei se Raphael Montes “está entre os mais brilhantes ficcionistas jovens”, como afirma Scott Turow logo no adesivo da capa. Comprei este livro logo após o lançamento, e me recordo bem de todo o barulho e promoção em torno do título, que é da Companhia das Letras, e a ótima recepção da crítica. No entanto, a narrativa em muitos aspectos lembra livros infanto-juvenis, há uma ou outra passagem que poderia ser cortada, algumas repetições e vícios (o autor parece gostar muito do adjetivo “ofensivo”) e soa como se a parte final tivesse recebido um pouco menos de esmero no tratamento; senti pressa nas entrelinhas. De qualquer maneira, é um livro que prende e não dá um minuto de sossego. Se o autor ainda “não é tudo isso”, vale a pena acompanhar sua obra evoluir e amadurecer.

Onde eu comprei? Na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, Avenida Paulista, São Paulo.