Colecionando significados

Li não lembro onde sobre um escritor que, sabendo que a morte estava próxima, quis se despedir das árvores do jardim pois muito em breve não as veria mais. Outro dia travei com uma amiga um debate via whatsapp sobre isso ou quase isso; me falava a respeito de concluir desenhos e o novo projeto de guardá-los bonitinhos em um Tumblr (a necessidade do “autoral”), dias depois sobre especialização em joalheria e curso de artes africanas, tudo com uma paixão tão intensa que usei o exemplo do escritor com as árvores. O pesar mais angustiante de reconhecer a própria finitude talvez seja o de dizer adeus para uma coleção de significados. Numa perspectiva positiva, eu diria que essa coleção é o fio – fino, bem fino esse fio – condutor das coisas que fazem a pessoa pensar (no inglês aqui cairia muito melhor, to realize é o verbo correto) que viveu para ver, fazer, ouvir, sentir uma enormidade de “coisas que não têm preço”. Mas pensem nisso num sentido bem atemporal e neutro. A paixão pelo sentido que as coisas trazem à vida veio antes de a publicidade matar algumas boas expressões. Nem eu consegui terminar esse post sem associar o final a uma merda de bandeira de cartão de crédito.

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Nessa exata mesma linha, me ocorreu como é tocante quando Isaac Davis, o personagem de Woody Allen em Manhattan, termina fazendo uma lista de “why is life worth living?”, e entre pinturas, movimentos de sinfonias e obras literárias, ele diz: “Tracy’s face”.

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É preciso imaginar Sísifo feliz

Sou da opinião que preces e lágrimas no cinema funcionam melhor do que na igreja: se você não for atendido, ao menos terá tido mais uma oportunidade de catarse ou de passar raiva; eu pelo menos de tédio não morro.

Com a programação do Oscar aí, hoje desviei para Cannes com a desculpa da última semana em cartaz e fui parar em A Grande Beleza (La Grande Belleza, Paolo Sorrentino, Itália, 2013), que já me havia sido recomendado na ánalise. É impossível não se sentir procurando a mesma coisa que Jep Gambardella, que nunca escreveu seu segundo livro porque na superficialidade da alta sociedade de Roma – “estamos todos à beira do desespero” – ele não encontrava a tal grande beleza, e não há maneira aparente de escrever ou se inspirar sobre o nada e o vazio.

Viver em busca da grande beleza, de algum sentido ou do que estiver por trás das máscaras que cada um traz na cara – as ganas de chacoalhar pelos ombros gente muito dissimulada são genuínas – tudo isso me faz pensar com alguma frequencia no mito de Sísifo. O rapaz levava a enorme pedra montanha acima e chegando ao topo, a pedra rolava, e lá ia ele retomar a pedra. Em looping eterno. Quer dizer.

Mas como está lá no perfil do Pintinho, definitivamente e como mantra motivacional nessa vida, “é preciso imaginar Sísifo feliz”.

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